12 outubro 2019

Lua em Áries e a Jornada da Heroína


                  
                 O monomito sintetizado pelo mitólogo Joseph Campbell* apresenta uma estrutura cíclica que pode ser observada a partir de narrativas que ele encontrou em décadas de pesquisa. essa estrutura é repetida até hoje na arte e na nossa história individual, cheia de aventuras interiores. Veja o nosso momento como exemplo:

                 O início é uma situação conhecida, uma rotina. A Lua em Peixes, um lugar frio e úmido como ela; desde último aspecto andou onze graus desde então segue nesse ambiente que lhe é confortável.
                 Então acontece o Chamado para a aventura: a Lua, que é andarilha, é levada a cruzar um portal que a tira desse mar confortável e seguro. Agora nossa heroína se vê em um território muito seco e muito quente, contrário à sua natureza.
                 Vou colocar os dois próximos passos juntos, porque aqui estão amarrados; o primeiro é encontrar ajuda: provavelmente de alguém mais velho, mais sábio. Sim! A poucos graus a Lua encontra seu dispositor! Nesse embate ela reconhece muito do território onde transita. O problema – e ai começam os testes (o próximo passo): esse encontro é por oposição então, se Marte pode ajudá-la, será pela dor. Outro problema: o próprio Marte está muito desconfortável, exilado, expatriado, e isso se reflete na qualidade dos seus territórios.
                 Mas é uma Lua em Áries é portanto arretada! Se ela cai, só levanta e vai! Está cheia de luz, no final da fase crescente, colérica, num signo colérico. Não para pra ficar lambendo ferida. Vai passando os testes.
                 Próximo passo do monomito: a hora de encarar a maior provação, o pior medo do heroi: precisamente aos 14 graus, a quadratura com Saturno! “Essa é a hora mais negra do heroi. ele enfrenta a morte e pode ser que até mesmo morra, apenas para renascer”. Rá! Nossa heroína cai e levanta; morre e renasce!
                 Depois desse grande enfrentamento a heroína reinvindica, como recompensa, um tesouro, reconhecimento especial ou poder. Isso vai acontecer dali a poucos graus, quando se opõe ao Sol, onde se enche de luz, iniciando sua fase cheia, e fecha um trígono com Júpiter, hoje domiciliado no signo que fala de Quíron, o centauro que, lidando com sua própria ferida incurável, ajudou tantos outros. E assim será, ela aprendendo e ensinando, distribuindo sua luz, até que entre em touro, no começo da tarde do dia 14, momento em que será exaltada e uma nova aventura começa.





                 Da cozinha: Acelga, uma verdura tão lunar: redonda, branca e aquosa. Sou apaixonada por ela mas cortei as folhas em pedaços grandes e machuquei com sal, para que ela perdesse grande parte da sua água como no momeço da jornada. Isso faz com que ela fique mais resistente e mais saborosa. Fiz a mesma coisa com alguns rabanetes e um taço de salsão. Enquanto os vegetais suavam no sal, ralei gengibre, tostei e moí gergelim branco, cortei cebolinha. Misturei esses temperos. Lavei e espremi bem a acelga, rabanete e salsão (sempre é bom verificar se ainda não estão muito salgados) e temperei com a mistura. Finalizei com pimenta calabresa.
                 Se a gente adiciona um molho de arroz, fecha tudo e deixa fermentar, obtém um kimchi, uma conserva tradicional coreana que é entrerrada em grandes barris por muito tempo. Mas pra fermentar é necessário um aspecto melhor com Saturno. Além disso, em Áries a energia é de ignição mas nem sempre os processos vão até o fim. E assim em salada já fica incrível, mesmo que depois de umas horas fechadinhas fique com um cheirinho de inferno. Mas é uma delícia!


*Campbell levava 4 planetas em Áries no seu mapa natal, inclusive os dois regentes Marte e Sol, mais Mercúrio e Júpiter colados ao Sol, combustíssimos.

09 outubro 2019

Lua em Peixes



                 No começo da tarde a Lua submerge em Peixes; mal entra na água já fecha um trígono com Vênus em Escorpião e uns passos além com Mercúrio. Em Escorpião Mercúrio é peregrino, ou seja, não tem nenhuma dignidade nem debilidade, já Vênus está exilada e mal disposta. A Lua, mais adiante, depois de fazer um sextil com o restritivo Saturno finalmente vai encontrar o benéfico e seu dispositor Júpiter, porém em quadratura, um aspecto muito difícil. Ó Céus, o que será das nossas vontades?
                 A Lua, Vênus e Mercúrio, planetas mais próximos de nós e que portanto tratam também de assuntos mais próximos, não vêem Sol nem Marte, os dois planetas coléricos. 
                 Colérico não é sinônimo de raivoso. Tem muita coisa nessa energia impetuosa, inclusive a alegria, o entusiasmo e o impulso para conquistar nossas vontades. Tem mas tá em falta até sexta.

                 Enquanto isso, o jeito é cozinhar sem fogo. No ambiente frio, úmido e ácido é que se faz o ceviche. Tempo é necessário, mas sem exagero: se a cebola fermentar vira veneno!
                 Cortei os talinhos do coentro bem miudinhos, pimenta vermelha, cebola e uma pitada de pimenta do reino. Espremi ali meio limão, cortei duas bananas em pedaços pequenos (porque queria bem azedinho, pedaços maiores dão um maior contraste doce/azedo que também é muito bom), misturei tudo e salguei. Por fim, as folhas de coentro. Se for preparar o ceviche depois, já deixe as bananas na geladeira.




03 outubro 2019

Devoção


                 Prometo que vou variar mais as estrelas fixas; mas com tanto planeta passando por Libra é muita oportunidade da gente olhar para uma estrela tão benéfica e que ao mesmo tempo traz à lembrança a responsabilidade que cada um tem nessa Sorte, é preciso se esforçar. Além disso, como uma estrela que traz um mito agrícola, também traz conceitos caríssimos à cozinha. É um ritual aqui no Dodô reverenciá-la todo mês, quando a Lua abre essa janela.

                 Hoje é Vênus que está no grau vinte e três de Libra. Domiciliada e sem maléficos à sua vista, pode tratar dos seus assuntos. 

                 "Vênus é devoção." foi uma afirmação da Sol Invictus que criou raízes por aqui. É devoção porque para Vênus as coisas boas e gostosas que a gente sente são ligadas à ideia de Beleza - com B maiúsculo - que é um vislumbre da Eternidade e do divino.

                 Dia auspicioso pra isso: é dia de Júpiter! A Lua fica conjunta a ele, e eles também têm esse vislumbre. E confiam.

                 Como nós podemos ter também? A gente pode olhar pra cima, e/ou olhar pra quem está perto, e/ou pra Natureza, e o divino está nisso tudo. Está também no resultado do trabalho do homem: a Cultura. Um dia de muitas Belezas!


                 O nabo é branco, frio e bastante úmido, como a Lua; ganhou asas, para movimentos livres, amplos, sagitarianos.
                 O trigo é da mão da Astreia. Os grãos ficam de molho antes de serem cozidos. Pode-se colocar a ervilha pra cozinhar na mesma panela, no final do preparo, porque o trigo demora muito mais que ela. Por favor não usem ervilha em lata - coisa mais fácil do mundo pegar o pacotinho delas congeladas e deixar guardadinho no congelador; e olha a cor!
                 Essa base combina com tantos temperos que meu palpite é que você se aventure no aroma que vem da panela e escolha o tempero que ele te sugere. Vai bem aí um fio de óleo cru na hora de servir; um bem bom, os óleos são de Júpiter e ele está muito bem dignificado!
                 Também aproveita os últimos momentos de Marte em Virgem e pega faca e o link pra fazer a borboleta


28 setembro 2019

Mercúrio conjunto a Spica


23 setembro 2019

Sol em Libra


                 O Sol caiu em Libra. Esse é um ponto do calendário em que dia e noite têm a mesma duração, equilibrando a balança.
                 Nesse momento, há no Céu outra dualidade que a gente vai trabalhar, tentar equilibrar: Lua em Câncer em oposição a Saturno em Capricórnio. Ambos domiciliados. A oposição é um aspecto tenso, de embate. Mas é um embate aberto. Saturno, seco, frio, restritivo, na última esfera celeste. A Lua, úmida, fria, generosa, nutridora, na esfera mais próxima de nós e de nossas panelas. Tudo o que acontece no céu passa por ela para chegar a nós.
                 Portanto busquei frutas secas, resultado de secura e tempo, coloquei na panela, esse recipiente lunar, com alguma água. Ao mesmo tempo - que loucura - acendi o forno para molhar e ao mesmo tempo secar e o conteúdo se transformar em uma conserva/geleia (e não uma sopa).
                 Assim a gente vai lidando com o trígono de maléficos, com a perda da luz da Lua, esse momento introspectivo. Melhor coisa é fazer isso esquentando a barriga no fogão. O corpo todo pensando junto. Bom, pensando junto é modo de dizer, a Lua quadra Mercúrio, pode dar alguma falta de ritmo nesse processo. Mas deixa as linguagens se trombarem, mesmo que possa doer um tanto, talvez venha coisa boa, inusitada. Nem todos os processos criativo são rosas.
                 Mercúrio quando está em Libra não quer treta com ninguém. O que é intensificado quando acaba de passar pela Vênus. Mercúrio é um planeta neutro, toma para si as qualidades do planeta que está próximo, que hoje é Vênus, que é úmida e fria como a Lua. E também está domiciliada.
Vênus de Libra entregou pra Mercúrio uma garrafinha com um ingrediente pra ser colocado bem no fim do umedece-seca da panela; não poderia ser de outra coisa: água de rosas.


GELEIA DE CRANBERRIES E ROSA
1. Hidratar 400g de cranberries
2. Fazer uma calda rala com 1/2 xíc água e 1/4 xíc açucar
3. Liquidificar uma maçã com suco de meio limão e um pouco de água
4. Juntar cranberries e suco de maçã à calda e manter em fogo baixo, mexendo até a consistência desejada (se precisar colocar mais água, melhor colocá-la já quente)
5. Quando estiver pronto, apagar o fogo e espere esfriar. Só então adicionar 2cc água de rosas.

13 setembro 2019

Guacamole




                 Você olha Júpiter domiciliado e jubilado e já se alegra! Tá escutando essa risada gostosa no céu? É ele!
                 Mas, não sei... parece que alguém olha pra ele com uma pulga atrás da orelha... ou eu poderia dizer: alguém olha pra ele com um Mercúrio em quadratura? Mercúrio, (ai que nervoso, por só mais esse grau) domiciliado e exaltado em Virgem, racional e concentrado, acha desagradabilíssimo o estardalhaço cavalar do vizinho - e ainda essa gula, meu Zeus! Pra que tudo isso?!
                 Mercúrio e Vênus estão em conjunção; saíram há pouco da situação de combustão, podem finalmente se servir de uma limonada fresca e trabalhar em paz.Trabalham em um texto, claro. Poesia bem lapidada, se bem que despretensiosa.
                 Mas assim não dá! Alguém fecha a janela por favor! Agora a Lua fazendo uma oposição, encarando mesmo!
                 A Lua não tá muito bem, coitada; em Peixes é regida por Júpiter e por Vênus, quadrando um, fazendo oposição à outra, eles com arestas entre si. Oposição também  ao Sol e partil a Marte! Lunática, diz coisas como :
“Só os bons poetas nos curam do fastio de palavras.
 Só a comida simples e essencial nos cura da saturação da gula.”*

                 Você quer ver todos bem. Chama todo mundo pra casa do Mercúrio (já que já tem uma galera lá, e eles gostam de servir bem para servir sempre); oferece um alimento úmido, para agradar o sanguíneo Júpiter e a fleumática Lua. Já que a Lua tá citando um escritor colombiano, que tal uma guacamole? Abacate de corpão Lua-Júpiter (generoso e, como ele, untuoso). O tomate, cebola, pimentas, sal, coentro, limão a se deixarem ser poesia por Mercúrio-Vênus. Dá o trabalho de corte pro Marte em Virgem pra ele ficar ocupado. O Sol feliz porque AMA comida latina! Oba! Se der treta, oposições, quadraturas, é só o calor do momento, já passa - olha o trígono com o Tempo, e vai ficar tudo em segredo.

                 Aliás, Saturno não quis aparecer. Tá jubiladão, domiciliado, preferiu ficar lá fazendo as coisas de casa-12-sexta-feira-13 dele. Também nem gosta de guacamole, então deixa o cara. Cada um tem seu jeito de ficar bem :)


                 *Héctor Abad em "Livro de receitas para mulheres tristes"





09 setembro 2019

Lua em Aquário - A crase não foi feita para humilhar ninguém.



                 Quatro planetas em Virgem e o amor pela ordem. A busca pela perfeição . Virgem dá domicílio e exaltação a Mercúrio e isso traz inquietude, muitas vezes até algum apego a picuinhas. Mercúrio é deus da língua, e olha a nossa portuguesa-brasileira, que linda! Tudo tão específico, lapidadíssimo, mil regras e suas exceções, mil línguas mães, a maleabilidade dos 'dialetos'... uma frase bem construída impressiona e deixa virgo satisfeito.

                 O céu quase todo virginiano de hoje está filtrado pela Lua em Aquário, a Lua que lembra a frase do Ferreira Gullar. - "A crase não foi feita para humilhar ninguém." (texto aqui)

                 Uma frase bem construída é bonito, mas se sentir superior por isso já á outra história. Aquário divide a água do conhecimento divino com os homens, não faz sentido a gente usar o conhecimento para se afastar do outro.
                 Na cozinha também tem bastante isso. A história dos pratos, as técnicas, dão valor a eles (vou deixar um exemplo abaixo). Mas surtar quando alguém comete uma gafe culinária, ui.
                 Hoje proponho um exercício de soltura. É o seguinte: ferva bastante água em uma panela de uns 20cm de diâmetro. Pegue na mão um punhado de espaguete; observe que o macarrão não cabe na panela. Perceba que, se quebrado ao meio, cabe direitinho; Aquário e Virgem são signos ligados à racionalidade então não pule essa etapa, ela é essencial! Deduza que é uma ótima ideia quebrar ao meio. Não quebre em muitos pedaços, ao meio já é ótimo - o Céu está virginiano, não sejamos assimétricos!
                 Pode servir com garfo e faca. Você vai perceber que o espaguete inteiro também é mais fácil de comer, e que mais uma vez a tradição tem seus porquês. Virgem e Aquário dão as mãos. Mas aí está, você cometeu um ato revolucionário: quebrou o espaguete e o prato ficou bom, apesar de imperfeito!! Vai me dizer que não se sente mais leve?



"SPAGHETTI

     Não existiam os spaghetti, ao menos com esse apelido, antes de 1800. Filhos evidentes das tujje ancestralíssimas, por séculos eles se chamaram genericamente vermicelli ou vermicellini, de acordo com a dimensão do seu diâmetro. A tradução não estimula o apetite. Vermicello, no singular, quer dizer, 'pequeno verme'. A História, todavia, justifica o nome.
     Além das trujje normais, aquelas de fios longilíneos enrolados em novelos, na Sicília de 1200 se comiam também as espatifadas em pedaços pequeninos. Nada se devia desperdiçar. Por piada, uma anedótica similaridade, os cacos foram batizados de vermiceddi, no dialeto local.
     Depois, ao redor de 1480, algum sábio meridional bolou um instrumento formidável, o arbitriu, basicamente um cilindro de madeira com uma prensa mecânica por dentro e uma série de orifícios na ponta inferior. Com o arbitriu se faziam massas novas, mas também se recuperavam os vermiceddi, recomprimidos e transformados de novo nas trujje. Tratava-se, porém, de um casamento de matérias mal-aproveitadas, de uma adaptação. E assim, pioneiríssimo na defesa do consumidor, o honesto inventor do arbitriu decidiu batizar o seu produto de vermiceddi di trujje ou de trujje bastarde, uma iguaria sem paternidade oficial. O tempo e o espraiamento da pasta pela Itália inteira se encarregam de fabricar uma infinidade de corruptelas, das quais sobreviveram os vermicelli. Um versejador campano, Antonio Viviani, utilizou pela primeira vez o mote spaghetto em 1824, num poema cômico, 'Li maccheroni di Napoli', em que comparava o vermicello a um piccolo spago, um barbante miúdo. Uma inspiração de obviedade mais atroz do que chamar os restos de trujje de vermezinhos. Viviani, contudo, não criou somente um termo. Em seu poema ele efetivamente modificou o seu próprio dialeto. em Nápoles, então, não se dizia spago ou spaghetto. Barbante era spavo. O seu diminutivo, spavetto. Ironia: a obra do versejador se evaporou, ninguém mais sabe dela fora de sua cidade, enquanto o universo inteiro come os spaghetti."
in: LANCELLOTTI, Sílvio. O Livro da Cozinha Clássica. Porto Alegre: L&M, 1999. pág 120

05 setembro 2019

Quadratura Virgem-Sagitário e a moqueca



                 Um pouco antes do próximo amanhecer a Lua em Sagitário encontra Júpiter e mira o divino. A Lua é o corpo.
                 Ao mesmo tempo, Virgem é o signo que está na cúspide da casa 2, casa do que sustenta o corpo. Marte e Mercúrio estão ali combustos, racionalidade e agressividade não estão funcionando muito bem. O trígono com Saturno domiciliado traz a paciência e a solidez. Traz secura e restrição também, mas, olhe aquela fortuna ali em Touro, conjunto à estrela fixa Menkar. Menkar pertence à constelação de Cetus, o monstro que Netuno mandou para devorar o corpo de Andrômeda; isso porque sua mãe ousou afirmar que a sua beleza era superior à das nereidas. E penso que além da racionalidade e agressividade, podemos também baixar um pouco a arrogância. A gente já pode ver no que que dá essa combinação.
                 E de olhar pra isso eu sentia a melancolia desse triângulo de terra, quando ontem em aula o Acuio foi assertivo: “Nada acontece sem a autorização da Lua”. A Lua, fazendo quadratura e antíscia com esse triângulo, liga a terra com o divino, num signo mutável que abre duas casas desse mapa: a casa 4, que fala das raízes, a casa 5, que fala das crias e criações.
                 A partir disso lembro que os rituais têm como uma das intenções “manter a ordem do que está em cima a partir da ordem que está embaixo”; mas que rituais e tradições não precisam ser estupidamente fixos. O que precisa, sim, é atenção ao que está se fazendo. Presença.

                 A moqueca que preparei para esse mapa aconteceu assim, mesmo antes de eu ter me dado conta racionalmente: escolhi a moqueca por unir tradição, por ter esse formato de camadas, que julguei ser importante, e por desconfiar ser comida oferecida a orixá e que portanto fala com o divino. Parecia tudo tão certo, e fixo. Então ela foi abrindo outros caminhos: descobri que a moqueca não tem origem diretamente africana mas muito mais forte é a semelhança com as caldeiradas portuguesas. A obrigatoriedade de camadas também foi rapidamente refutada. A receita que gostei traz detalhes que satisfazem os planetas que se vestem da Virgem pois as cozinheiras explicam a razão e melhor maneira de usar cada ingrediente. Posso dizer que existem camadas sim, mas no conteúdo e não na forma. Um dos processos importantes é chamado de “machucar”, e como isso transforma os temperos! (Quem nunca?). Mas o que seria disso tudo na panela se não fosse o jupiteriano azeite de dendê, que com o calor se expande, perfuma e deixa todo o prato com a cor quente e maravilhosa do centauro!


03 setembro 2019

Lua em Escorpião


                
                 Quando a pimenta com caveira foi preparada pelo ex-crush que carrega três planetas em Escorpião no mapa natal e você se pergunta se abrir o vidro é  seguro, porque a Lua atravesssa a via combusta exilada em Escorpião, disposta por Marte-Virgo, forte pois na sua triplicidade e no seu dia, cego pois combustíssimo, e num dia assim a nóia escorpiana é distribuída com abundância para todos sob o Céu.

02 setembro 2019

Marte Cazimi em Virgem



                
                  “A Virgem pertence ao chão. E isso, meu caros, diz quase tudo sobre Ela. Citarei seu mito e como Astréia fugiu do mundo por não suportar o defeito humano, no singular. Contou da terra, como tratar da mesma e assim colher a cevada. Contou dos ciclos, as primaveras e os invernos. Mutável que só ela, explicou como tudo, absolutamente tudo muda, tudo e absolutamente tudo se transforma nos ritmos da Natureza, da Terra, sua morada. Bom, e o homem? O homem fez o que costuma fazer. Botou fogo no mato.”
                
                 Assim escreveu a Astrolíricas há uns dias e eu fiquei embasbacada, como estou de novo agora, ao reler. Hoje a Lua passou por Spica, estrela da constelação de Virgem. E dói mesmo. Quatro planetas estão em Virgem, regidos por Mercúrio em Virgem, mas a gente não pode ir pro céu, como a Astreia, que “carregada por imensa tristeza retirou-se do mundo dos homens e colocou-se no céu”. Porque nós somos os malditos homens! Aliás, a gente tá preso na casa XII, casa do auto-boicote, com esses 4 planetas e mais a Lua, representante do povo na Astrologia Mundana. A casa XII, das prisões; também a casa inimigos secretos, de medos. Isso porque, além de essa casa não ver o ascendente, ela tem uma luz que engana os olhos. Nas casas XII e VI, respectivamente o nascer do sol e o poente, da luz não deixa ver com clareza e assim surgem as visages.
                Olhando o Marte cazimi no signo da Virgem, eu lembrei de uma dessas visages, e me acendeu o coração:
                 Um personagem de cabelos de fogo e olhos vermelhos, como Marte, que tem os pés voltados para trás para enganar os caçadores, que lembra o artifício que o pequeno Mercúrio – regente de Virgem – usou para despistar o roubo dos bois de Apolo.
Ah, Curupira, tô pedindo, pedindo mesmo, Curipira, cuida dos bichos! Cuida dos matos! Apesar da insanidade de tantos de nós!
                 Saturno tá em Capricórnio enraizado no Fundo do Céu, não deixando dúvida sobre a esterilidade da terra, mas a Fortuna tá com Júpiter em Sagitário, e eu escolho olhar para Saturno exaltando Marte-Curupira, protetor em vez de Saturno exaltando Marte-destruição-no-coração-do-Sol-representante do-governo-em-astrologia-mundana.
                 Então esfriei os ânimos bastante por aqui, troquei panelas por faca e tábua, e a não ser pelo palmito que foi assado, optei por um preparo só com cortes, apelando para a pureza e precisão do Marte Virgo. Uma receita bonita do Ignacio Medina, que a sugere com palmito em conserva (eu preferi assar um fresco e compensar a acidez colocando mais limão, porque afinal Saturno está domiciliado e portanto dignificado, então queremos um azedo também digníssimo; adicionei à receita dele a castanha do Pará, que ficou maravilhosa com o abacate.
                 Embrulhei o palmito em papel alumínio untado e assei em forno a 180ºC. Cortei. Cortei fatias de manga, salpiquei com pimenta. O abacate cortei em pedaços bem menores para embeber em limão, temperei com sal, cebolinha, coentro fresco e castanha do Pará picada também na faca.

O texto embasbacante completo da Astrolíricas está aqui 


26 agosto 2019

Memória em Câncer



                 A Lua está em Câncer, casa da memória. Parei pra arrumar umas fotos pro Esquadrão DIY e me flagrei abrindo bauzinhos e pastas, olhando passado, presente e futuro do Dodô, me perguntando qual será o caminho. DO quer dizer caminho, então o único jeito de responder é continuar em movimento.
                 Mercúrio e Sol continuam em mútua recepção. Mercúrio em Leão se perguntando sobre sua identidade, regendo e regido pelo Sol em Virgem. A Analu e eu temos pras nossas conversas vários emoji-glifos dos signos e planetas, e Virgem é o ratinho  o animal que passa agilíssimo e inquieto pelas gavetas, analisando e arrumando. A Silvia também já disse que Virgo é roedor, fiquei feliz: ponto para nossos emoji-glifos. 
                 Eu aqui, no presente, me nutrindo disso tudo, amigos de conversas suculentas.
                Achei lindo. Abri o mapa. A Lua na casa 5, das crias. Júpiter na casa 10, lindão! A casa 10 fala da carreira. A Lua em Cãncer exalta Júpiter. Sinto estar olhando pro futuro. É Fé que chama :)

                 Fé nas crias. A gente sempre faz o melhor que pode no momento.
                 Façamos. ❤


23 agosto 2019

Sol em Virgem disposto por Mercúrio em Leão



                 O Sol chegou a Virgem. Mercúrio, seu regente por domicílio e por exaltação, está em Leão. Mercúrio ali pensa e fala da sua própria identidade. O Sol em Virgem ilumina o que está perto, os detalhes.
                 Por isso retomo agora a questão que está acesa desde a concepção do almoço Coração em Chamis: qual é o prato típico brasileiro? O Brasil é muito grande, é uma tarefa muito difícil – senão impossível –  e sobre ela bastantes sociólogos já se debruçaram. Mas é sempre um exercício muito bom. Especialmente nesses dias que dá vontade é de sair gritando que, porra, o Brasil é um só! A gente se pergunta o que pode fazer pra ajudar, e de novo a Virgem aponta para os cuidados constantes e que nem sempre aparecem. Continuo pensando nisso na cozinha. Trago a afirmação do Gilberto Freye:

“Através do cotidiano ou quase-cotidiano é que se fixam, nas culturas, os seus característicos e se firmam os seus valores.”

                 Mercúrio há pouco fez um trígono com Júpiter, se pergunta sobre sua identidade, sobre seus valores, e agora dispõe o Sol que olha para o simples; e eu mais uma vez olho para o arroz-com-feijão e não abro mão. Seja baião-de-dois, seja carreteiro, seja feijão preto com arroz tal ou tal... aqui em casa é assim mesmo, como na foto: virginianamente monocromático, pourque gosto do feijão carioca, e do arroz integral. Acompanha o que tiver de bom e bonito na feira de produtores locais.
                 Aproveito a entrada do Sol em Virgem - na casa 1, que trata do corpo – nesse momento a Lua estava em Touro - na casa 9 que trata dos assuntos superiores - para fazer um convite e um apelo: que dediquemos um tempo à observação sobre as nossas escolhas cotidianas – são essas escolhas que sustentam a tradição, que sustentam a economia, que revelam nosso modus operandi.

21 agosto 2019

Vênus em Virgem



13 agosto 2019

Vênus cazimi em Leão

Logo mais Vênus será rainha: estará no coração do Sol-Leão, e dali irradia o que é dela:

      "Ishtar está vestida de prazer e amor.
       Está cheia de vitalidade, graça e voluptuosidade.
       Nos lábios, ela é doce; a vida está em sua boca.
       Em sua aparência, o júbilo é completo.
       Ela é gloriosa; véus são jogados sobre sua cabeça.
       Sua figura é bela; seus olhos são brilhantes."

        *[Hino a Ishtar citado por Antony Aveni em Conversando com os Planetas]




       "Um belo provérbio do norte da Itália diz que a Polenta representa o sol na mesa, durante o escuro do inverno."
       [Silvio Lancellotti]

       No centro do Sol de polenta, a Vênus-quibebe em pedaços inteirinhos, só porque tinha que ficar bo-ni-ta.

       Quibebe é um refogado de abóbora de pescoço, mais conhecido na região sudeste do Brasil: seu preparo e temperos muda bastante de casa pra casa, mas me arrisco a dizer que é comum a base de cebola e alho (eu não uso a cebola), a abóbora, sal, pimenta, tem gente que acrescenta açúcar (eu fico só com o próprio da abóbra), cheiro verde e coloquei canela tambem. O ponto do cozimento também varia dos cubinhos até o purê,

05 agosto 2019

Lua conjunta a Spica


                 LUA conjunta à estrela fixa SPICA à uma e meia dessa madrugada. Não sei quanto a vocês, mas aqui onde moro está frio pacas! Eu já tenho um pão de levain crescendo pra ir pro forno à noite então quanto acontecer esse encontro, a casa estará aquecida e perfumada pelo trigo. Um dos cheiros mais ancestrais e confortativos da história da humanidade.



                 Durante a Idade do Ouro governada por Saturno, Astreia desceu ao mundo e nos ensinou a fazer o pão: arar os campos, cultivar o trigo, colher, separar os grãos, moer, misturar com a água para preparar a massa, dar o tempo para que as bactérias se instalem e proliferem, fazendo o pão fermentar, fazer o fogo. Recomeçar todo o processo.

                 Astreia dá forma à constelação de Virgem, Spica é a sua estrela mais brilhante. Acho lindo de tudo que atualmente a estrela que fala da mão que segura o trigo esteja em Libra, signo que dá exaltação a Saturno. Isso porque um dos ingredientes mais importantes do pão é o Tempo.
O pão é vivo, e cada processo do seu desenvolvimento leva seu tempo; quando atropelamos esses processos a nossa saúde se ressente.

                 Hoje Saturno está domiciliado, e a gente respeita isso demais. Como o clima está bem frio a massa está demorando bastante pra crescer, a gente fica na sofrência do apetite mas na fé que vai dar certo, afinal, a Lua está em sextil com o fogo da criação e da vida; depois disso tem o tempo do forno. Hoje o tempo do forno vai ser longo também: vou deixar bem tostadinho já que Vênus, a regente de Libra e do ASC Touro, está ela própria combusta, tão chegando cada vez mais pertinho da quentura do Sol.

                 Grãozinhos de mostarda para o sextil com Marte, também em Leão, como anotado aqui.

                 Que delicia será essa noite quentinha de forno espelhando esse céu tão bonito!

04 agosto 2019

menu Coração em Chamis





Cumpadis!
No fim de semana passado comemoramos os 10 anos da Saturnália (Vida longa à Saturnália!!!) com um tributo a Antonio Carlos Bernardes Gomes, o Mussum! Muita coisa rolou: leitura de mapa, apresentação de roda de samba, show de palhaços; gente boníssima passou por lá, gente que renova nossa alegria, nossa fé, nossa vontade de aprender e trocar sempre mais e mais, gente que deixa nosso coração em chamis





O Dodô ficou responsável pelo nosso ritual antropofágico: o Céu da Boca baseado no mapa natal do Mussum :D
E ficou assim:




Mussum tinha o Sol em Áries e a Lua em Leão. O Sol e a Lua são chamados luminares, são os astros que dizem da vitalidade da pessoa, cada um à sua maneira: a Lua é a água do corpo, a inteligência feminina, receptiva, o olho esquerdo do mundo; o Sol é a consciência, o centro, o olho direito do mundo. No mapa natal do Mussum esses dois astros estão em um aspecto exato, um trígino, os dois olhos do mundo se vêem.
Áries é o signo que chega junto da primavera, é a energia de ignição que pode queimar, mas também é a energia criativa que faz a semente brotar. É onde está o Sol do Mussum, exaltadis no signo do Sol Invictus. Além disso o Sol do Mussum é o almuten, o planeta vitorioso desse mapa.
A Lua, majestosa, está em na casa do Sol, Leão. Manílio escreveu que Leão tem o coração puro, sentimento sem complicação. O coração em chamis.
Portanto para o menu pensei em algo muito fresco, viçoso e sem complicação.
A relação de trígono entre os luminares faz com que as qualidades de ambos sejam valorizadas; isso lembra demais o nosso arroz e feijão. Se ingeridos junto, nutrientes de um ajudam na absorção de nutrientes do outro. “Comer feijão com arroz vai trazer mais benefícios para seu organismo do que comer apenas arroz, ou apenas feijão. O que falta em um, o outro completa.”
Arroz com feijão que também lembra a gente da criançada que o Mussum ajudou, inclusive com tratamento odontológico. "O sorriso do brasileiro é um cartão de visita para o mundo".
O planeta Marte, regente do seu grande Sol, está no signo de Aquário: não vai ficar de braços cruzados quando se trata de agir pela coletividade. E Saturno, o regente de Aquário está em Touro, levando o foco dessa ação será para o bem estar do corpo. Touro olha para a terra, para as coisas do dia a dia. Arroz e feijão pra deixar forte! Pra sorrir!
Saturno está conjunto a Júpiter no signo de Touro, e mais uma vez penso, para o menu, em legumes encorpados, frescos, coloridos e suculentos: abóbora, batata doce... Vênus, a regente de Touro, está pertinho do Sol em Áries, pertinho demais até, chamuscada mesmo, pra falar o bom português.
Por isso a gente vai servir legumes assados chamuscados com maçarico, o fogo do trígono Leão/Áries. O queimadinho dessa ação traz um amargor: Saturno no corpo do Touro! Mas vocês vão ver que um amarguinho bem entendido faz as coisas mais interessantes, vai dar o contraponto do doce do melado e de alguns legumes. Ainda sobre o Saturno: Júpiter e ele tão pertinho, é o começo do ciclo que marca uma geração, nesse caso, a geração para a qual o prazer do corpo é lei. Aqui a gente tem a cana no melado que besunta o assado, nas na vida do nativo tem um dedinho de mé de verdade, porque na casa 12, essa lei geracional pode passar do ponto.

Pra manter alegria vamos trazer a força do arroz e feijão. Feijão em caldinho, pra esquentar; arroz em bolinho, porque falamos em mé e deu vontade demais de puxar um petisco de boteco – uma friturinha – pra acompanhar a cerveja, né? Já chamamos também chamar o lúdico peixinho do Mercúrio em Peixes. Tudo bem, depois a gente soma tudo e faz uma pindureta. Soma também uma geleia de caipirinha e a geleia de laranja com pimenta, que na coleção Dodô é a conserva dedicada ao signo de Gêmeos, ascendente do Mussum. Com ASC em signo duplo, “o Mussum sambista, assim como o peixe, conseguia viver bem em dois ambientes completamente distintos”


“ – Que neguinho lisinho, parece mesmo um muçum!
Sem saber, a brincadeira de Otelo era ainda cientificamente muito acertada. O Synbranchus marmoratus é de fato uma espécie cheia de particularidades que serviam como perfeitas metáforas para a vida do sambista. Difícil de ser capturado por causa de sua textura lisa e corpo esguio, o bicho tem hábitos noturnos e é capaz de se adaptar tanto à vida na água quanto na terra. Talvez, se soubesse das coincidências entre seu modo de viver e o do peixe, Mussum tivesse aceitado mais rápido o apelido que o acompanharia para todo o resto de sua vida.”
(Juliano Barreto)






MENU CORAÇÃO EM CHAMIS 🔥 
. caldinho de feijão carioca
. salada de grãos de cevadis com vinagrete e folhas
. bolinho de arroz
. legumes chamuscados e com molho de melado de canis
. Mercúrio em Peixesis
. geleia de caipirinha
. geleia Dodô para o signo de Gêmeos (laranja e pimenta)