dodô

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19 julho 2008

'Sonho de François Rabelais, escritor e frade renegado', (e receita de ganso recheado)

Numa noite de fevereiro de 1532, no hospital de Lyon, enquanto dormia no seu quartinho de médico, após sete dias de jejum, em obediência às regras da vida conventual, que continuava a manter mesmo tendo abandonado as ordens, François Rabelais, escritor e frade renegado, teve um sonho. Sonhou que se encontrava sob a parreira de uma taberna do Périgord, e que era o mês de setembro. Estava posta com uma toalha branca e muitas garrafas de vinho uma mesa estreita e longa, e uma das cabeceiras era ocupada por ele. A outra cabeceira estava preparada para outra pessoa, mas ele não sabia de quem se tratava. Sabia apenas que devia esperar. Enquanto esperava, o taberneiro lhe trouxe um prato de azeitonas em conserva e uma jarra de cidra fresca. E ele começou a beliscar, bebericando aquela excelente cidra de tão bela cor de âmbar. Em certo momento ouviu um rumor de cascos e viu que uma nuvem de pó se aproximava pela estrada principal. Era uma carruagem régia, com um cocheiro vestido de vermelho e dois lacaios em pé, nos estribos. A carruagem parou no pátio da taberna, os dois lacaios tocaram duas vezes suas trombetas e se precipitaram para estender um tapete vermelho diante dos postigos da carruagem. Postaram-se em sentido e gritaram: Sua majestade o Sr. Pantagruel, rei da comida e do vinho! François Rabelais levantou-se porque compreendeu que havia chegado o seu comensal, que já avançava majestosamente sobre o tapete vermelo desenrolado aos seus pés pelos lacaios. Era um homem de estatura gigantesca que caminhava segurando a barriga com as mãos, uma pança enorme como um odre, que balançava para a esquerda e para a direita. Tinha uma barba negra cerrada emoldurando-lhe o rosto e, sobre a cabeça, um chapéu de abas largas. Sua majestade o Sr. Pantagruel abriu a boca num largo sorriso cordial, arregaçou as mangas da veste real e sentou-se à outra cabeceira da mesa. O taberneiro chegou precedendo uma sopeira fumegante, transportada por dois pajens, e começou a servir. Caldo de cevada, trigo e feijão, anunciou enquanto servia, uma coisinha leve para aviar o estômago. Sua majestade o Sr. Pantagruel amarrou um guardanapo grande como um lençol em torno do pescoço e deu o sinal de começar a François Rabelais. Era uma sopa de cereais, na qual se notavam folhas de louro e dentes de alho, uma coisinha delicada mesmo. François Rabelais tomou um prato com prazer, enquanto sua majestade o Sr. Pantagruel, após ter pedido licença educadamente, aproximou a sopeira e dela começou a beber diretamente. Enquanto isso, os pajens já vinham chegando com outra comida, e o taberneiro, pressuroso, refazia os pratos. Desta vez se tratava de gansos recheados. A François Rabelais couberam dois, à sua majestade o Sr. Pantagruel, dezenove. Taberneiro, disse o majestoso convidado, diga-me como se cozinham esses gansos, quero ensinar ao meu cozinheiro. O taberneiro alisou os pujantes bigodes, clareou a voz e disse: Antes de tudo, pega-se um bom chucrute e dá-se-lhe uma fervura de quatro ou cinco minutos. Depois, deixa-se derreter a gordura dos gansos e ali se cozinham as aves, com o repolho, os bagos de zimbro, o cravo, o sal e a pimenta e a cebola triturada. Deixa-se cozinhar tudo por três horas. Depois, acrescenta-se presunto, os fígados dos gansos cortados em pedacinhos, e liga-se a papa com miolo de pão. Enchem-se os gansos com esse recheio e os levam ao forno por uns quarenta minutos. Durante o cozimento, é preciso lembrar de recolher a gordura crepitante para deitá-la no recheio. E o prato está pronto. Ao som dessa descrição, o apetite de François Rabelais crescera de novo, e o de seu comensal também, bastava vê-lo lambendo os bigodes com sua língua gigantesca até perguntar: E agora, taberneiro, que é que nos propõe? O taberneiro bateu palmas, e os pajens apareceram carregando tabuleiros fumegantes. Capões com aguardente de ameixa e galinhas d’angola ao roquefort, disse o taberneiro com satisfação, e pôs-se a servir. François Rabelais, de bom grado, começou a comer um capão e uma galinha d’angola, enquanto sua majestade o Sr. Pantagruel devorava uma dezena. Não sei por quê, disse o Sr. Pantagruel, mas acho que com estes frangos ia bem um pouco de molho de miolos, que me diz meu caro comensal? François Rabelais assentiu, e o taberneiro, como se não tivesse esperando outra coisa, bateu palmas. Os pajens trouxeram duas tigelas repletas de molho de miolos. Sua majestade o Sr. Pantagruel besuntou um pão de um metro de comprimento e, entre uma bocada de frango e outra, dava-lhe algumas mordidas, acabando tudo em dois minutos. Quando terminaram, o taberneiro pediu licença para retirar os pratos sujos e perguntou: Que diriam agora os senhores de um pouco de javali à caçadora, ou será que preferem filés de lebre recheados e fritos? Para não errar, François Rabelais propôs que trouxesse ambos. E sua majestade o Sr. Pantagruel bocejou para mostrar que ainda estava com fome. O taberneiro bateu palmas, e os pajens chegaram com as novas iguarias. Ah! conseguiu engrolar, enquanto comia, François Rabelais, que supremo requinte o javali à caçadora! Uma caçadora ligeiramente agridoce, com azeitonas verdes e um tantinho de pimenta-de-caiena, o que salientava o aroma da caça selvagem. E aqueles filés de lebre recheados e fritos, respondeu, entre uma mordida e outra, sua majestade o Sr. Pantagruel, não poderiam ser qualificados como divinos?
O taberneiro, com ar embevecido, olhava-os comer. Era setembro e o sol desenhava manchas claras na sombra da parreira. Sua majestade o Sr. Pantagruel estava com os olhos pequenos, pequenos, e de tanto em tanto fechava as pálpebras, como se fosse adormecer. Depois, pediu licença educadamente, deu algumas palmadinhas na barriga com a palma da mão e soltou um arroto formidável, um ruído que mais parecia um trovão e que ressoou na planície toda. E com o ruído do trovão François Rabelais acordou e compreendeu que a noite era de tempestade. Acendeu, tateando, a vela e pegou, da mesinha, um pedaço de pão seco que se permitia a cada noite, para quebrar o jejum.

In: TABUCCHI, Antonio. Sonhos de Sonhos. Rio de Janeiro: Rocco, 1996

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