12 novembro 2019

Caput Algol



                 Mais uns passos e a Lua passará pela estrela fixa Caput Algol, a cabeça decapitada da Medusa.

                 A Medusa era uma sacerdotisa de Atená e, portanto, celibatária. Um dia Posseidon a cobiçou e a violou. Sobre isso Junito Brandão escreveu: "A deusa da inteligência [Atena] puniu a Medusa, porque Posídon, tendo-a raptado, violou-a dentro de um templo da própria Atená".
                 Dá até um nó na cabeça mas é isso mesmo: Posseidon violou a Medusa dentro do templo e Atená puniu a Medusa, transformando-a em uma górgona: a cabeça aureolada de serpentes venenosas, presas de javalis, mãos de bronze, asas de ouro. Além de transformá-la em um monstro, colocou sua cabeça a prêmio.
                 Por isso a estrela Algol trata de injustiças, de abuso e de pavor.

                 Hoje a Lua, cheia da luz do Sol em Escorpião, signo marcial, passa por ela. Mas a violência é escancarada e tratada com normalidade. Violação, abuso e injustiça acontecem todos os dias aos animais que nascem aprisionados e etiquetados como se fossem produtos, engaiolados e judiados para servir a vários setores da economia – é inacreditável o alcance da indústria da exploração animal! Inseminação artificial, clausura, espancamento, assassinato; sem falar nos testes de laboratório.
                 No Dodô a gente traz o assunto pra cozinha. Porque afinal tem gente que come isso. E não é raro flagrar que existe um pavor de olhar pra isso e ser petrificado. A começar pelo eufemismo: “Cadê a proteína?” Feijão tem proteína meu querido. “Não, a proteína animal.” É carne que chama né. É perna, é peito, é um pedaço da barriga de alguém.
                 Assim como a Medusa perdeu sua identidade humana para se tornar um monstro, os animais deixam de ser seres sencientes para se tornarem "a proteina", um produto vendido em bandejinhas padronizadas que descaracterizam sua forma original. Funciona. Conheço pessoas que se atracam com um filé mas não comem animais menores, onde você pode perceber o formato o corpo do animal no prato. Esses tempos ouvi alguém dizer que tem pena de comer “bolachinhas que têm olhinhos”. Mas se ela é ciente de onde vem o conteúdo das bandejinhas é uma escolha (e não uma ignorância) considerar o seu prazer imediato acima da vida do outro, como fez Posseidon.
                 Por outro lado é sim apavorante olhar para o que acontece e quem olha não fica igual. Assim, fechar os olhos é uma forma de se proteger de uma nova forma de pensar que confronta com padrões de comportamento fixados. Quando parei de comer animais me senti, por bastante tempo, traidora das tradições familiares, de tantos momentos felizes em volta da churrasqueira. Meu vocabulário era pequeno na época, hoje sei que a churrasqueira aceita tantas coisas deliciosas, cheias de texturas e cores.

                 Deixo aqui o link do filme Terráqueos, aproveitando que todos estão apaixonados pelo Joaquin Phoenix, e se alguém quiser perguntar alguma coisa, pedir dica, receita, tiver dúvida de técnica, ajudo no que puder; não sei tudo, claro, mas a gente procura juntxs. 
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>pintura: Medusa. Rubens, 1618

10 novembro 2019

A Nuvem de Smog



                 A Lua logo chega em Touro e no mapa a gente pode ler A Nuvem de Smog, um conto do livro Os Amores Dificeis, do Italo Calvino. Do protagonista do conto não sabemos o nome mas vamos chamá-lo de Mercúrio em Escorpião. Mercúrio está na casa 6, retrógrado, combusto, disposto por um Marte exilado e faz sextil com Saturno. E ele escreve os trechos seguintes:

                 "O periódico A Purificação era o órgão de uma empresa pública, e eu precisava me apresentar lá para definir o que deveria fazer. Trabalho novo, cidade diferente, fosse eu mais jovem ou esperasse mais da vida, teriam me dado ímpeto e satisfação; agora não, eu só conseguia ver o cinzento, o miserável que me cercava, e me enfiar nele, não tanto como se estivesse resignado, mas até como se gostasse daquilo, porque daí tirava a confirmação de que a vida não podia ser diferente. Mesmo as ruas que tinha que percorrer, eu as escolhia assim, as mais secundárias e estreitas e anônimas, embora para mim fosse fácil passar por aquelas com vitrines elegantes e belos cafés; mas não gostava de perder a expressão dos rostos cansados dos passantes, o ar espremido dos restaurantes baratos, o bafio das lojinhas apertadas, e até certos ruídos próprios das ruas estreitas (...) tudo porque aqueles desgastes e silvos externos não me deixavam dar excessiva importância aos desgastes e silvos que eu levava por dentro."

                 "Eu demorava a pegar no sono. O quarto, aparentemente sossegado, à noite era atingido por sons que pouco a pouco aprendi a decifrar. A intervalos se ouvia subir uma voz deformada por um alto-falante, que dava avisos curtos e incompreensíveis; se eu estivesse adormecido acordava pensando estar no trem, pois o timbre e a cadência eram aqueles dos alto-falantes das estações, tal como emergem durante a noite no cochilo do viajante. Depois de acostumar o ouvido, consegui pegar as palavras. "Dois raviólis ao sugo...", diziam. "Um bife grelhado. Uma costeleta..." O quarto ficava em cima da cozinha da cervejaria Urbano Rattazzi, que servia refeições até depois da meia-noite: do balcão os garçons passavam aos cozinheiros os pedidos, escandindo-os num microfone interno."

                 A Lua em Touro só vê Saturno, Mercúrio e Sol. Mas é uma Lua exaltada, e o protagonista entra na cervejaria:

                 “Entrar da rua naquele lugar não era apenas uma passagem da escuridão para a luz: mudava a consistência do mundo, do lado de fora desfeito, incerto, ralo, e aqui cheio de formas sólidas, de volumes com espessura, peso, superfícies com cores brilhantes, o vermelho de um presunto que estava sendo cortado no balcão, o verde das jaquetas tirolesas dos garçons, o ouro da cerveja. Havia um monte de gente, e eu que pela rua me acostumara a considerar os passantes sombras sem cara e também eu uma sombra sem cara entre tantas, aqui redescobria de repente uma floresta de rostos masculinos e femininos, coloridos como frutas, cada um diferente de outro e todos desconhecidos. Por um momento esperava ainda conservar no meio deles minha invisibilidade de fantasma, depois me dava conta de que eu também me tornara como eles, uma imagem tão precisa que até os espelhos a refletiam com todos os pêlos da barba já crescida da manhã, e não havia refugio possível, a própria fumaça que se levantava densa para o teto de todos os cigarros acesos no luar era uma coisa em si, com um contorno próprio e um espessura própria e não modificava a substância das outras coisas.
                 Punha-me perto do balcão sempre lotado, voltando as costas para a sala cheia de risadas e de palavras que subiam de cada mesa, e mal se liberava uma banqueta eu me sentava, tentando conquistar a atenção do garçom, para que pusesse diante de mim a toalhinha quadrada de papel, um copo de cerveja e a lista dos pratos. Era custoso eu me fazer ouvir, aqui na Urbano Rattazzi que eu observava noite após noite, da qual conhecia cada hora, cada movimento, e o burburinho em que minha voz se perdia era aquele que eu ouvia toda noite subir pelas balaustradas de ferro enferrujadas.
                 - Nhoque na manteiga, por favor - dizia eu, finalmente o garçom no balcão ouvia e se encaminhava para o microfone e escandia: "Um nhoque na manteiga!", e eu pensava no grito cadenciado como saía do alto-falante da cozinha, e tinha a impressão de estar ao mesmo tempo aqui no balcão e deitado lá em cima no meu quarto, e as palavras que se cruzavam amontoadas entre os grupos de gente alegre que bebia e comia e o tinir dos copos e talheres eu tentava espedaçá-los e atenuá-los em minha mente até reconhecer o barulho de todas as minhas noites.”




                 Cenas do próximo capítulo: por ora não há aspecto, mas na casa 7 está seu próprio regente domiciliado (Júpiter) e Vênus também em Sagitário vai em sua direção.

                 Na cozinha Dodô-Urbano-Rattazzi: nhoque de inhame (cuja gosminha dispensa o ovo e cuja cor lembra a nuvem de smog), puxado no óleo de coco sabor manteiga, com pepitas de girassol, alecrim – de Marte - e sálvia.

09 novembro 2019

Laurus Nobilis


    
                 Hoje Marte está conjunto à estrela Spica. No site Costellations of Words a gente lê sobre isso: "Celebridade. Pode ter bom julgamento e tomar decisões rapidamente. Ou ser violento nas disputas, rígido, ou um tolo."
                 Ou seja, essa conjunção pode trazer uma coroa de louros. E não é que o  nome da planta é realmente Laurus Nobilis? Também descobri que queimar louro pode aliviar dor de cabeça e estresse, e um banho pode tonificar os músculos, que pertinente.
                 Aqui no Dodô o ritual tem que virar comida, então o louro será tostado na panela. Em maior quantidade ele dá um toque bem refrescante. É arriscado? Sim, ele pode tomar o sabor de tudo, pode ficar amargo se passar, mas num sextil por signo a dispositora do Marte incentiva: "Pode tacar louro!", e o dono da casa, num sextil mais exato, só confirma. Bom, se esse cara tá falando, não tem como dar errado! Mas a palavra final é da Lua. Vixe!!! A Lua já está com o maçarico na mão! Em trígono a Júpiter, olhando de frente o Marte com a Spica. Olhar de frente é tenso, mas é alguma relação A Lua vê o seu dispositor. O problema, na Astrologia, é não ver. A Lua não vê Sol e Mercúrio, por exemplo. Mercúrio, aliás, pouco vê, voltando em direção ao Sol, as asinhas tostadas como nossas folhas de louro. Talvez por isso eu esteja aqui tagarelando sem antes ter anotado o processo da cozinha, sem ter foto nem nada. Talvez devesse ser mais cuidadosa, mais certeira... mas então, a Lua, sem fazer aspecto com ele(s), não nos passa esse bilete. Saturno também está dizendo "Cuidado, não vão colocar fogo na casa., precisamos manter certas estruturas" mas Áries é a sua queda. A Lua, quando passa ali, não tem o menor saco pra Saturno: "Vai esfriar a pqp! Porque eu sou rica!!". Rica de Vida, claro. De vida e fogo no rabo? Com seu regente em Libra, Vênus regente de Libra em signo de fogo... Não sei, não vou me comprometer, Mercúrio nessas condições não tá ajudando a pensar, como vocês estão vendo.

                 Voltemos à cozinha, a Lua trouxe uma memória. Quando eu morava em Forno Alegre e a vida era parecida com o mapa de hoje, um amigo me mostrou uma coisa incrível: ele esquentou bastante uma panela com um pouco de óleo e ali fritou o macarrão antes de colocar a água para cozinhar. E o trigo bem tostado solta um perfume amendoado. Eu acrescento: enquanto tosta a massa e sente esse perfume, pede pra que a Lua ouça os bons conselhos que são mostrados pela Spica, mesmo que ela reclame um tanto. É possível. Os guerreiros levam muito em conta seus adversários. Todo mundo tem que olhar pra casa 7.
                 O macarrão tostado vai ficar muito bom com o louro, é o meu palpite. Eu falei que não ia me comprometer com a hipótese do fogo no rabo mas como é uma maneira muito saudável de consumir a energia incendiária do ar, vou apostar no trígono Lua-Vênus-Júpiter; e como esse já é um prato mediterrâneo (macarrão bronzeado e louro), vamos usar e abusar do figo e do pepino... uma pimentinha... penso em combinar pimenta vermelha quente com pimenta verde em conserva. É importante um conserva aqui, algo com sal, com acidez, porque Saturno tá quadradinho e no fim de contas quem vai comer por ultimo é ele, sempre bom lembrar. Sempre ele. Spica tá aí pra lembrar que ciclos se sucedem e é isso mesmo. Alcaparras para Saturno! E pra ostentar a riqueza de Vida, o que tiver de fresco na geladeira. Porque não dá pra planejar e ir lá comprar e tudo mais, vamos usar o que tem e pronto. Decisões rápidas. Eu tenho tomate. Queria ter salsinha. Na falta dela vou fazer uma misturinha hortelã fresca + orégano seco. Olha pra Vênus com Júpiter, finalizo com azeite de oliva e fé que vai dar certo.



01 novembro 2019

Casa dell'Angelo

                 Hoje Vênus muda para o signo de Deus e nesse passo entra também na casa 9, a casa de Deus. Mercúrio, que andou ao seu lado por tanto tempo, parou e agora caminha para trás, permanecendo em Escorpião, na casa 8. A apenas quatro graus um do outro. Tão perto e tão longe.
                 Também Tão longe, Tão perto: Raphaela e Cassiel são anjos. Eles estão muito perto dos humanos, como estavam Vênus e Mercúrio num sextil com a Lua, que é significador do nosso corpo.
                 A Lua em Capricórnio tão sequinha, precisando mesmo de um sussurro confortativo. Os humanos experimentam o Tempo e a Morte, ao contrário dos anjos. Humanos são devorados por Saturno. Me diz se você não está sentindo isso nos seus ossos hoje.
                 Agora Vênus dá um passo e olha para cima. No filme, junto aos majestosos cavalos do Portão de Brandemburgo Raphaela desabafa: ‘As pessoas estão distantes, se afastando de nós, é exaustivo amá-las’. Vênus agora vai em direção a Júpiter, o sextil com a Lua é rompido.
                 Cassiel, como Mercúrio regido por Marte em Libra que está na casa 7, quer se colocar no lugar dos humanos, e consegue: torna-se humano para salvar uma garota que caía de uma varanda, indo contra as regras que proíbem a interferência dos anjos nas vidas das pessoas. Assim ele segue seu movimento retrógrado, e experiencia o ponto de vista humano, que no filme é mostrado em cores, o estímulo da matéria nos arrebata.
                 Encontra Damiel, também um anjo que se tornou humano. Damiel tem uma pizzaria: a "Casa dell'Angelo", e ali apresenta a Cassiel os primeiros sabores.
                 Pelas ruas, lamenta que ninguém escuta o que o outro sente. Cai no mundo, cai na schnaps, enfim, cai na casa 8, cai em território de Escorpião. 
                 "A Vida é uma situação excepcional."



"Vocês...
vocês, a quem amamos.
vocês não nos veem.
vocês não nos ouvem.
vocês nos imaginam tão longe,
no entanto, estamos tão perto.

Somos os mensageiros que aproximam os que estão longe.
Somos os mensageiros que trazem luz aos que estão nas trevas.
Somos os mensageiros que trazem a palavra aos que perguntam.
Não somos a luz, nem a mensagem.
Somos os mensageiros.

A mensagem é o amor.
Nós não somos nada.
Vocês... são tudo pra nós.
Deixem-nos morar nos seus olhos
para que vejam o mundo por meio de nós.
Recuperem, por meio de nós
aquele olhar terno de volta.
Então...
estaremos perto de vocês
e vocês...
perto Dele."

Tão Longe, Tão Perto 
[In Weiter Ferne, So Nah!]
dir: Wim Wenders, 1993



29 outubro 2019

Sangria de Escorpião



                  Olha pra cima, com cuidado: quatro planetas em Escorpião exatamente acima das nossas cabeças, bem no Meio do Céu! Todos dispostos por Marte. É um Marte congelado: exilado, quadrado e disposto por Saturno que está no seu domicílio frio, Capricórnio. No momento está jubilado, fortíssimo!
                  Há uma mútua disposição por exaltação mas, passando por Libra, signo venusiano, como dar vazão à violência?
                 Vênus está num signo de Marte, alguém pode dizer. Mas também exilada. Sem poder de ação nos seus assuntos - por sinal os assuntos que a gente gosta tanto. E como ela faz conjunção com Mercúrio e a Lua, os astros mais próximos de nós, a gente sente essa decepção.
                


                 Olhando pra isso tudo tão tenso, eu tô pensando que só há uma solução: uma sangria!

                 A lunação que começou há pouco tem esse cenário de frio mas a Lua se aqueceu passando pelo Sol, fez um trígono com o lote da Fortuna e agora se encontra com a benéfica Vênus e com Mercúrio então vamos fazer uma coisa bem boa com "é o que temos" afinal é escorpião! A ideia é abrir um vinho, que é remédio e é veneno, como essa Vênus gosta, colocar esse gelo saturnino, ou ainda, congelar a própria vítima digo fruta e/ou o suco de laranja para que o resultado fique mais fixo, menos diluído, adicionar água tônica, gin e, se quiser, açúcar. Mas evita o açúcar, é capaz de cair mal.

27 outubro 2019

Lua cj Spica


                 Escreveu Firmicus Maternus:"Aflições e doença, uma vida curta e uma morte violenta são indicadas pela Lua movendo-se de Marte para o Sol. Alguns morrem numa viagem ou em terras estrangeiras". A Lua, ao passar por ele, passa a carregar essa tensão pois o Sol está ali, logo dobrando a esquina.
                 Os atentos viram que a Lua passou por Marte há pouco. Sabem também que essa noite começa nova lunação, ou seja, Sol e Lua se juntam.
                 Antes que encontre o Sol - a Lua nesse estado inflamável - tem contato com dois benéficos: passa pelo grau da estrela fixa Spica e fez um sextil com Júpiter. Com o aceno jupíteriano esse movimento é interrompido e o dia foi salvo!
                 Esse contato também contagia a Lua com a sabedoria que Júpiter está maturando há tanto tempo em seu domicílio de fogo.
                 Isso me lembra outra tarde de domingo, em que eu observava a Yxapy começar uma fogueira. Perguntei a ela se tinha tanta intimidade com os outros elementos também, pois com o fogo é evidente. Ela respondeu que sim, mas que o fogo precisa de mais cuidado, senão ele morre.
                 Que maneira de olhar um elemento normalmente tão assustador como o fogo. Se a gente não cuidar, ele pode se descontrolar e destruir, mas também pode simplesmente morrer.
                 Vale da mesma maneira pro nosso fogo interno: raiva, alegria, entusiasmo, tudo o que é do temperamento colérico.
                 Tendo seguido essa lição de atenção, e com a fogueira suave e estável, acomodei num ninho quentinho de brasas uma pequena abobora de pescoço: sustança, doçura, a cor alegre de centauro.
                 A abóbora, que pode ser de qualquer variedade, a gente embrulha ou não, pode ser em papel-alumínio simplesmente, pode ser untada ou não, furadinha com tempero ou não, marinada ou não. Aí vai da vontade - mesmo que a vontade esteja meio indecisa.
                 E deixa ali quietinha minguando ao calor da fogueira. Vire várias vezes para que não queime. Não tem ponto certo, pode ser al dente ou molinha.

                 Com a abóbora assada preparei uma salada dela com vagem e trigo cozido (porque é dia de Lua+Spica), temperei com erva-doce, semente de girassol e pesto de rúcula, como servi no primeiro Céu da Boca. Fica de sugestão. Abusa da erva doce que é desintoxicante.
                 O trigo e vagem também podem ser cozidos na fogueira. O trigo deve ficar de molho horas antes para hidratar. É só levar para perto do fogo uma panela com bastante água e um pouco de sal, como você faz para cozinhar macarrão. Quando estiver macio é só escorrer e temperar. A vagem pode ser assada embrulhada num pacotinho, é bom besuntar de óleo para que não resseque.


14 outubro 2019

Libra e o o banquete do regato sinuoso

               

               
                  Libra é o signo cardinal do Outono, mas a vida também é feita de cotidiano, e a gente anda pelas ruas e sente o ar mais quente, e vê muito mais cores das flores; aqui na cidade onde moro começa o perfume de flor das laranjeiras e limoeiros, e no quintal já tem uns pesseguinhos: é primavera nas ruas do hemisfério sul do planeta.
                 Apelando para a licença poética trago, d'O Cozinheiro dos Cozinheiros, livro de 1905, um texto que traz uma delicadeza tão libriana, seja na imagem das xícaras transparentes 'impelidas pela corrente do rio' quanto na pena de perder a oportunidade de declamar uma poesia para o deleite dos convivas, na brisa quente de um signo de Ar.

                 "Entre tantas, vem de molde citar, n'este sucedento livro, o banquete conhecido pelo nome Kyokusuino-Yen, ou o banquete do regato sinuoso.
                 É na primavera, quando os pecegueiros se cobrem de flores, que se dão estes banquetes e é á sombra d'esses guarda soes floridos, bordando as margens baixas dos regatos tortuosos, que os convivas se sentam, sobre a relva macia, mesmo á beira d'agua.
                 Cada um leva a sua preciosa chicara de transparente porcellana e todas, como pequeninos barquinhos de creança, são cuidadosamente postas ao de cimo d'agua a montante do sitio onde a festa tem logar.
                 Impellidas docemente pela corrente, cada conviva tem, antes que a sua chicara venha deslisar deante de si, deccompor um pequeno poema.
                 Se o estro lhe não açode incorre n'uma penalidade, e já não é pequena não concorrer com rimas ricas para o brilho do banquete, que só principia depois de lidas as poesias para as quaes se dá o assumpto no próprio momento em que as chicaras começam a regatear.

                 Estes agapes poéticos datam do tempo dos Imperadores Nintoku e Geuso, 355 e 486 annos depois de Christo. [no Japão]

                 Que Vatel, n'esta nossa velha Europa, teria sido capaz de inventar hors d'oeuvre d'um sabor mais delicado?"

Lisboa, Novembro 1904. = C. d'Arnoso.






Geleia de Pêssego  com Baunilha e Alecrim

1. preparar uma calda rala: misturar, na panela fria, 25g de açúcar e 50ml de água, acender o fogo baixo e parar de mexer até que a consistência seja mais grossa que inicialmente; acrescentar sementes de baunilha;
2. adicionar então 300g de pêssegos (sem casca) picados e suco de um limão, mexendo às vezes até obter textura de geleia. Acrescentar um pouco de alecrim picadinho.

foto da Lidia Ueta, que leva uns tantos planetas na Balança

12 outubro 2019

Lua em Áries e a Jornada da Heroína


                  
                 O monomito sintetizado pelo mitólogo Joseph Campbell* apresenta uma estrutura cíclica que pode ser observada a partir de narrativas que ele encontrou em décadas de pesquisa. essa estrutura é repetida até hoje na arte e na nossa história individual, cheia de aventuras interiores. Veja o nosso momento como exemplo:

                 O início é uma situação conhecida, uma rotina. A Lua em Peixes, um lugar frio e úmido como ela; desde último aspecto andou onze graus desde então segue nesse ambiente que lhe é confortável.
                 Então acontece o Chamado para a aventura: a Lua, que é andarilha, é levada a cruzar um portal que a tira desse mar confortável e seguro. Agora nossa heroína se vê em um território muito seco e muito quente, contrário à sua natureza.
                 Vou colocar os dois próximos passos juntos, porque aqui estão amarrados; o primeiro é encontrar ajuda: provavelmente de alguém mais velho, mais sábio. Sim! A poucos graus a Lua encontra seu dispositor! Nesse embate ela reconhece muito do território onde transita. O problema – e ai começam os testes (o próximo passo): esse encontro é por oposição então, se Marte pode ajudá-la, será pela dor. Outro problema: o próprio Marte está muito desconfortável, exilado, expatriado, e isso se reflete na qualidade dos seus territórios.
                 Mas é uma Lua em Áries é portanto arretada! Se ela cai, só levanta e vai! Está cheia de luz, no final da fase crescente, colérica, num signo colérico. Não para pra ficar lambendo ferida. Vai passando os testes.
                 Próximo passo do monomito: a hora de encarar a maior provação, o pior medo do heroi: precisamente aos 14 graus, a quadratura com Saturno! “Essa é a hora mais negra do heroi. ele enfrenta a morte e pode ser que até mesmo morra, apenas para renascer”. Rá! Nossa heroína cai e levanta; morre e renasce!
                 Depois desse grande enfrentamento a heroína reinvindica, como recompensa, um tesouro, reconhecimento especial ou poder. Isso vai acontecer dali a poucos graus, quando se opõe ao Sol, onde se enche de luz, iniciando sua fase cheia, e fecha um trígono com Júpiter, hoje domiciliado no signo que fala de Quíron, o centauro que, lidando com sua própria ferida incurável, ajudou tantos outros. E assim será, ela aprendendo e ensinando, distribuindo sua luz, até que entre em touro, no começo da tarde do dia 14, momento em que será exaltada e uma nova aventura começa.





                 Da cozinha: Acelga, uma verdura tão lunar: redonda, branca e aquosa. Sou apaixonada por ela mas cortei as folhas em pedaços grandes e machuquei com sal, para que ela perdesse grande parte da sua água como no momeço da jornada. Isso faz com que ela fique mais resistente e mais saborosa. Fiz a mesma coisa com alguns rabanetes e um taço de salsão. Enquanto os vegetais suavam no sal, ralei gengibre, tostei e moí gergelim branco, cortei cebolinha. Misturei esses temperos. Lavei e espremi bem a acelga, rabanete e salsão (sempre é bom verificar se ainda não estão muito salgados) e temperei com a mistura. Finalizei com pimenta calabresa.
                 Se a gente adiciona um molho de arroz, fecha tudo e deixa fermentar, obtém um kimchi, uma conserva tradicional coreana que é entrerrada em grandes barris por muito tempo. Mas pra fermentar é necessário um aspecto melhor com Saturno. Além disso, em Áries a energia é de ignição mas nem sempre os processos vão até o fim. E assim em salada já fica incrível, mesmo que depois de umas horas fechadinhas fique com um cheirinho de inferno. Mas é uma delícia!


*Campbell levava 4 planetas em Áries no seu mapa natal, inclusive os dois regentes Marte e Sol, mais Mercúrio e Júpiter colados ao Sol, combustíssimos.

09 outubro 2019

Lua em Peixes



                 No começo da tarde a Lua submerge em Peixes; mal entra na água já fecha um trígono com Vênus em Escorpião e uns passos além com Mercúrio. Em Escorpião Mercúrio é peregrino, ou seja, não tem nenhuma dignidade nem debilidade, já Vênus está exilada e mal disposta. A Lua, mais adiante, depois de fazer um sextil com o restritivo Saturno finalmente vai encontrar o benéfico e seu dispositor Júpiter, porém em quadratura, um aspecto muito difícil. Ó Céus, o que será das nossas vontades?
                 A Lua, Vênus e Mercúrio, planetas mais próximos de nós e que portanto tratam também de assuntos mais próximos, não vêem Sol nem Marte, os dois planetas coléricos. 
                 Colérico não é sinônimo de raivoso. Tem muita coisa nessa energia impetuosa, inclusive a alegria, o entusiasmo e o impulso para conquistar nossas vontades. Tem mas tá em falta até sexta.

                 Enquanto isso, o jeito é cozinhar sem fogo. No ambiente frio, úmido e ácido é que se faz o ceviche. Tempo é necessário, mas sem exagero: se a cebola fermentar vira veneno!
                 Cortei os talinhos do coentro bem miudinhos, pimenta vermelha, cebola e uma pitada de pimenta do reino. Espremi ali meio limão, cortei duas bananas em pedaços pequenos (porque queria bem azedinho, pedaços maiores dão um maior contraste doce/azedo que também é muito bom), misturei tudo e salguei. Por fim, as folhas de coentro. Se for preparar o ceviche depois, já deixe as bananas na geladeira.




03 outubro 2019

Devoção


                 Prometo que vou variar mais as estrelas fixas; mas com tanto planeta passando por Libra é muita oportunidade da gente olhar para uma estrela tão benéfica e que ao mesmo tempo traz à lembrança a responsabilidade que cada um tem nessa Sorte, é preciso se esforçar. Além disso, como uma estrela que traz um mito agrícola, também traz conceitos caríssimos à cozinha. É um ritual aqui no Dodô reverenciá-la todo mês, quando a Lua abre essa janela.

                 Hoje é Vênus que está no grau vinte e três de Libra. Domiciliada e sem maléficos à sua vista, pode tratar dos seus assuntos. 

                 "Vênus é devoção." foi uma afirmação da Sol Invictus que criou raízes por aqui. É devoção porque para Vênus as coisas boas e gostosas que a gente sente são ligadas à ideia de Beleza - com B maiúsculo - que é um vislumbre da Eternidade e do divino.

                 Dia auspicioso pra isso: é dia de Júpiter! A Lua fica conjunta a ele, e eles também têm esse vislumbre. E confiam.

                 Como nós podemos ter também? A gente pode olhar pra cima, e/ou olhar pra quem está perto, e/ou pra Natureza, e o divino está nisso tudo. Está também no resultado do trabalho do homem: a Cultura. Um dia de muitas Belezas!


                 O nabo é branco, frio e bastante úmido, como a Lua; ganhou asas, para movimentos livres, amplos, sagitarianos.
                 O trigo é da mão da Astreia. Os grãos ficam de molho antes de serem cozidos. Pode-se colocar a ervilha pra cozinhar na mesma panela, no final do preparo, porque o trigo demora muito mais que ela. Por favor não usem ervilha em lata - coisa mais fácil do mundo pegar o pacotinho delas congeladas e deixar guardadinho no congelador; e olha a cor!
                 Essa base combina com tantos temperos que meu palpite é que você se aventure no aroma que vem da panela e escolha o tempero que ele te sugere. Vai bem aí um fio de óleo cru na hora de servir; um bem bom, os óleos são de Júpiter e ele está muito bem dignificado!
                 Também aproveita os últimos momentos de Marte em Virgem e pega faca e o link pra fazer a borboleta


28 setembro 2019

Mercúrio conjunto a Spica