22 novembro 2020

três planetas mudam de signo

 

                 A gente sempre fica de olho quando um planeta muda de signo. Na madrugada, quando a Lua entrou em Peixes, foram três a darem esse salto. Muda a maneira de agir dos planetas e muda também o tom das casas que eles regem. Amanhã há de ser outro dia.

A Lua entra em Peixes e encontra Vênus recém chegada a Escorpião.
O Sol entra em Sagitário e é Marte em Áries que ele vê.
Planetas fleumáticos em signos fleumáticos. planetas coléricos em signos coléricos.
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Um preparo fechadinho numa panela, ingredientes imersos em água, aquecidos com fogo e pimenta!
Chilli de batata doce!
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Em consideração a Júpiter dispositor dos luminares, em Peixes e Sagitário, a batata, que é generosa e suculenta vai passar um tempo no forno, vai ficar um tanto ressequida mas vejam, o açúcar, que é parte dela, vai caramelizar, seu sabor vai se concentrar, as bordinhas ficarão crocantes. Se tiramos do forno no tempo certo, fica melhor do que se não tivesse passado por essa temporada seca. Estou sendo muito otimista? Ê, Céu! Hoje é dia do Sol - em Sagitário.
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Segue a receita (do Jamie Oliver)

2 batatas doces médias
1 cebola
2 dentes de alho
1 pimentão vermelho pq
1 pimentão amarelo pq
coentro fresco
2 pimentas dedo de moça
2 xíc feijão branco cozido
2 latas de tomate pelado

Cortar as batatas doces em bocadões irregulares (quanto mais pontinhas, mais bordinhas crocantes). Colocar em uma forma, besuntar tudo muito bem com óleo vegetal e sal, pimenta do reino, cominho, pimenta caiena, canela e levar ao forno por 40 minutos em 200°C.
Enquanto isso, corte a cebola e os pimentões em pedaços de 1cm, pique o alho.

Aqueça uma panela com um fio de óleo, coloque ai cebola, um pouco depois os pimentões e quando estiverem refogados adicione o alho. Tempere novamente com o cominho, sal, pimenta caiena. Vamos fazer um mar com várias profundidades desse tempero (pois o que sai do forno não fica igual ao que entra direto na panela).
Pique bem fininho os talos do coentro e adicione ao refogado. Se tiver a pimenta fresca, corte em rodelas e acrescente agora. Com ou sem sementes, a escolha é sua. As sementes deixam o preparo mais picante.
Quando tudo estiver refogadinho e bem cheiroso, acrescente o tomate e o feijão. Cubra com água. Deixe cozinhar por meia hora.
Nesse ponto as batatas no forno provavelmente estão prontas. Junte ao cozidão suculento na panela e as folhas do coentro.
Sirva com arroz e limão.


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Para comer o céu do mês e ficções baseadas em mapas reais, dá uma olhada no Catarse do DÔ:
https://www.catarse.me/gastronomicas



19 novembro 2020

jornada cáprica

 

                 A Lua tão jovem, nem no quarto crescente chegou e já teve que encarar uma montanha digna de uma heroína. Por sorte seu primeiro encontro desde que entrou em capricórnio foi com Mercúrio que, por sextil, pode ter dado a ela algumas instruções, talvez um presente, como fez com Perseu e outros. Ela precisou quando mais acima encontrou Marte. 


                 Mais à frente o Sol a fez lembrar que é preciso sobreviver, não desperdiçar energia. E ela continua montanha acima. Encontra Júpiter, que já está ali há tanto tempo que parece ter perdido um parafuso. A Lua se pergunta se está num filme do Terry Gilliam, De qualquer forma é bom encontrá-lo.
No grau 27 há várias senhoras colhendo botões de uns arbustos que, dá pra ver bem, nascem nas rachaduras das escarpas. Um trabalho árduo, bem impressionante. A Lua sabe dos assuntos femininos, vê no botão da flor o órgão reprodutor da planta, tem carinho por eles. Segurou a mão da Vênus, mesmo em quadratura.


                 Então ela viu os botões serem salgados e mumificados numa conserva ácida. Frio na espinha. Fechou os olhos, cerrou o punho dentro do bolso para que Vênus não percebesse, sentiu um papelzinho. Era um recorte de jornal já amarelo que Júpiter entregou e ela só guardou. No pequeno papel, lê-se:

"A alcaparreira é um arbusto que se adapta bem em climas quentes, mas também tolera baixas temperaturas. É pouco exigente em relação ao solo, mas não admite encharcamento.
A alcaparra in natura é imprópria para o consumo por ter sabor muito amargo, pois é rica em ácido cáprico.
Seus botões após a colheita, deverão ficar sob luz solar por pelo menos 6 horas, para serem colocados em vinagre de boa qualidade.
Os botões frescos devem passar por um processo de fermentação antes do consumo. Eles podem ser dispostos em camadas preenchidas com sal, em uma solução de vinagre e sal, por pelo menos 20 a 30 dias, para adquirirem seu sabor característico."

                 A Lua passou por tanta coisa nessa subida, encontrou os planetas no signo da fermentação, encontrou o que exalta o Sol, e agora, junto com o deus do sal e a senhora dos venenos, ela olha pra trás e vê que tudo faz sentido.

                 Se você quer final feliz, faz uma busca pelos benefícios da alcaparra e encontrará aos montes.


                 Eu juntei com frutas secas hidratadas em mais vinagre mas compensei com uma cama fofinha de couscous marroquino, pra fazer carinho mesmo, pra Lua entrar em Aquário um pouco mais confortada.

Para comer o céu do mês, dá uma olhada no Catarse do DÔ


16 novembro 2020

Vênus Spica


 Às 16h quem encontra a estrela Spica é a Vênus. Domiciliada. Ah, que bonito. Uma vez, lá lá atrás na vida, ouvi alguém dizer que a cultura nos faz ter mais prazer. Faz a gente reconhecer mais valores. Aumenta as possibilidades de fruição do que quer que seja.
Esse caminho vai e vem. Quanto a gente não aprende em volta de uma mesa, batendo papo? A comensalidade é muito fertil.
Hoje praticamente ninguém conseguiria ficar quieto em volta da mesa: a Lua em Sagitário fazendo um trígono com Marte, rá!
Vamos aproveitar esse fogo todo, essa estrela, e fazer pizza. A massa fina deve ir ao fogo forte por pouco tempo.
A ideia pra hoje é: cada um inventa pelo menos uma cobertura, assim todo mundo se mexe e exercita o afeto libriano de considerar o outro. Mesmo no fogo, mesmo se trombando na cozinha. Ou melhor, até mesmo por isso!
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Pra prevenir, coloca bastante pimenta em homenagem aos planetas em Escorpião; azeitonas ou alguma coisa defumada para os em Capricórnio - esses todos a Lua não vê mas estão lá. E, sobretudo, mantenham Marte ocupado!
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Vai dar tudo certo, a Lua está em Sagitário, no sextil a Vênus-Libra-Spica.


A partir deste mês farei a tradução g'astrológica dos ciclos de lunação.
A ideia é a seguinte: envio o texto com as associações entre a comida e as configurações astrológicas do ciclo que começa. Envio também as receitas, pois a ideia é que cada um prepare o prato, e através dos sentidos e do movimento do corpo na cozinha, da memória que os cheiros, sons e sabores trazem. é uma maneira de apreender o que a lunação apresenta como possibilidade. A operação lunar junto com a mercurial.
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As traduções das lunações funcionarão por assinatura; para conhecer, é só seguir este link


 

13 novembro 2020

Ficções baseadas em mapas reais: Carlos Drummond de Andrade

 

 

                 Carlos Drummond de Andrade nasceu com a manhã, no momento em que a Lua encontrou o Sol. Nasceu, portanto, com um novo ciclo, a lunação que se deu no grau 7 de Escorpião. “Um fim unânime concentra-se e pousa no ar”, ele escreveu em Claros Enigmas.
                 Escurece.
                 Em cozinha, um mistério intrigante é a emulsão. A união de duas matérias que se repulsam mas sob tensão resultam  em um creme untuoso e leve. Robert Wolke explica que “a repulsão mútua entre óleo e água é superada por duas coisas: a força bruta que bate tudo junto e a ação de um ingrediente químico especial chamado emulsificador. Apenas quando essa combinação de força física e poderes químicos está em operação é que a mistura de óleo e água permanece na forma de uma verdadeira emulsão.”
                 Quem diria que a maionese tem parte com Marte!
                 Drummond, de ascendente em Escorpião, era o próprio Marte em Virgem. A estrutura tensa como sua poesia: aproximação e distância, entrega e ironia, agitação incômoda urbana e vida besta da província.
                 A palavra serve como emulsificador e como o bálsamo, é colocado na ferida. Mas nem sempre adianta. Tem vezes que a ferida não fecha, tem vezes que emulsão desanda em queda.
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BETERRABAS ASSADAS COM EMULSÃO DE FIGO:
Escolha algumas beterrabas pequenas (ou corte as grandes, para que não se demorem eternamente no forno), besunte com um fio de azeite e embrulhe com papel alumínio. Leve ao forno baixo (180°C)  para assar. Quando espetadas com a ponta de uma faca, devem estar macias mas ainda firmes, "entre o talvez e o se". Retire do forno e deixe esfriar o suficiente para não queimar as mãos.
Então é só cortar, temperar e servir com a emulsão de figo e balsâmico. Mas faça isso na pia. Por baixo da carapaça de papel alumínio o corpo rico em ferro há de sangrar dramaticamente! Retire o papel com cuidado para não respingar, porque beterraba mancha, e  você pode retirar também a pele, se desejar. Use os dedos mesmo, não precisa ficar escavacando com a faca.
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MOLHO DE FIGO E BALSÂMICO: 

Para preparar o molho, liquidifique ¼ xíc de vinagre balsâmico, 1cc de mostarda, 2 figos secos picados e ¼ xíc água. Com o aparelho ligado, acrescente aos poucos ¼ xíc  de azeite de oliva, deixando cair em um fio fino. Bata até emulsionar. Tempere com sal e pimenta-do-reino.
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12 novembro 2020

Vigília

 


Vocês estão sentindo a brisa nessa noite escura? A Lua encontrou Vênus e a gente respira.
Elas, as duas, se afastam da oposição a Marte.
A Lua fará uma quadratura a Júpiter que segue nos calcanhares de Saturno. Em seu tempo a própria Vênus repetirá esses passos.
Por ora, a dona da casa recebe a viajante combusta com uma cumbuca bem boa.
Hoje é quinta feira, dia de #TBT #QPR e memórias são um tônico pra Lua.
Na cumbuca a Vênus oferece uma potaje de vigília, porque o momento não deixa de ser tenso.
Meu palpite é procurar alguma coisa bem bonita que não existiria sem o caos do mundo, a cidade, o barulho; nessas horas corro para o Sonic Youth.
Na postagem dessa receita em 2016 a pedida foi um filme de comédia. Vale também. A comédia também tira leite do caos.

 

A postagem original com a receita está aqui


 

11 novembro 2020

Lunação do Escorpião

 

                 Um novo ciclo de lunação terá início na madrugada do dia 14 para o 15, quando a Lua se colocar no mesmo grau em que estará o Sol.
                 Escorpião, onde a Lua tem sua queda.
                 O mapa deste momento mostra que o regente do ascendente Virgem também está perto dos luminares. Marte domiciliado na casa 8!
                 Isso é que é uma lunação de Escorpião, senhoras e senhores!
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                 A discrição é tanta que nem são os próprios luminares que a anunciam e sim Mercúrio, que trará o novo dia refletindo a luz do Sol nascente num ângulo perfeito, um ângulo de posição heliacal.⠀
O ultimo aspecto de Mercúrio até o momento será com a própria Lua. Ela, que trata do povo, do corpo, da nutrição, deixou com o mensageiro algo que ele trará à luz no nascer do dia 15.


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                 A partir deste mês farei a tradução g'astrológica dos ciclos de lunação.
                 A ideia é a seguinte: envio o texto com as associações entre a comida e as configurações astrológicas do ciclo que começa. Envio também as receitas, pois a ideia é que cada um prepare o prato, e através dos sentidos e do movimento do corpo na cozinha, da memória que os cheiros, sons e sabores trazem. é uma maneira de apreender o que a lunação apresenta como possibilidade. A operação lunar junto com a mercurial.
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As traduções das lunações funcionarão por assinatura, dá uma olhada no Catarse do DÔ :)



09 novembro 2020

O cru e o cozido

 

                 

                 Algo dramático acontece no Céu. No segundo plano da cena celeste se dá a oposição exata entre Marte em Áries e Vênus em Libra.
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A natureza e a cultura.
O cru e o cozido.
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                 Aproveito a Lua em Virgem pra puxar a quadrilha bibliográfica. Carlos A. Dória traz a imagem que Lévi-Strauss propôs:
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                 “Entre várias tribos indígenas brasileiras, a mitologia sobre a conquista do fogo e das plantas domesticadas marca a passagem da ‘vida longa’ (a imortalidade) para a ‘vida breve’. Nessa ruptura entre o estado de natureza e a cultura situa-se a culinária."
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A imortalidade do Marte colérico, que é chama mas eterno enquanto dura.
A vida breve da Vênus que exalta Saturno, a consciência dos limites.
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                 "Se não dominamos o fogo e, por extensão, o mundo dos alimentos que levamos à boca, o prazer nos escapa entre os dedos e nos vemos como antagônicos ao mundo natural, como se este se recusasse a nos alimentar. Assim é que a reflexão sobre a culinária e a gastronomia faz parte da compreensão da nossa relação com o mundo exterior, abrindo as portas para a construção da nossa individualidade como um processo interativo com o próprio mundo em que vivemos."
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Carlos Alberto Dória. Estrelas no céu da boca. Ed. Senac.


 


07 novembro 2020

Lua em Leão: a fogueira que trouxe o dragão

 

                 A Lua está em Leão e tem coisa boa assando aqui nesse fogo fixo. No meu mapa Leão ocupa a casa 7, ou seja, a casa de vocês.
                 E faz tempo que quero incentivar cada um a acender o foguinho na própria casa e cozinhar, porque cozinhar toca a gente em vários temas da vida. No fim de contas a quarentena impôs essa prática pra várias pessoas e muitas aceitaram de bom grado. Surgiu até a terapia do pão. E o pão, vivo, ouso dizer, também é uma entidade viva e digno de habitar a casa 7 de uma pessoa. O professor-padeiro Rene Seifert disse "Quando você retirar o pão do forno, que você se reconheça nele"⠀⠀⠀⠀⠀⠀
                 Se me permitem, gostaria de trazer outra entidade do meu mapa natal: um dragão que mora junto com a parte da Fortuna. É Thuban.
                 Hoje em uma aula sobre gravuras do Hokusai o Diogo Kaupatez trouxe uma gravura com o dragão que, segundo a lenda, passou mil anos em uma caverna no fundo do lago e então ele irrompe em direção ao monte Fuji e aos céus! Ele leva numa das garras uma joia do conhecimento (como as maçãs que Thuban guarda). A ideia é: você deve se preparar mas em um momento emergir do lago. Nesse momento da aula soou um alarme aqui dentro, espero que o som ensurdecedor não tenha atrapalhado.
                 Thuban está hoje no grau 7 de Virgem e portanto na casa 8 do meu mapa. Não o fundo do lago mas no mundo do Hades, voltando para a mitologia que nos dá o lastro; de qualquer forma, num lugar oculto. E mais: a casa 8 é a segunda casa a partir da 7, a de vocês, e a segunda casa tem algo que nutre.
                 Então, foguinho do coração bem aceso com a lua em Leão, meu desejo é que eu consiga entregar a vocês algo de valor pra cada um e, claro, vou puxar pelo estômago.
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                 Logo mais detalhes, ainda preciso dar umas lambidas nos formatos. Há também neste mapa um Sol em Virgem sempre iluminando mais alguma rebarba para aparar.
 

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Aline

04 novembro 2020

Potência cardinal

 


                 A Lua entrou em Câncer e agora temos quatro planetas domiciliados. O domicílio é uma dignidade essencial, ela diz que o planeta está muito confortável nesse signo, e apto a agir segundo sua própria natureza. É mesmo como se estivesse em casa, confortável em sua própria pele.

                 Como dizia, dos sete planetas considerados pela Astrologia Tradicional, quatro estão em casa. Falando assim até soa como uma calmaria de fim de domingo. Vizinhos domiciliados, cada um cuidando das suas coisas.
                 Até poderia, não fossem os aspectos. Com a Lua em Câncer percebemos a situação de oposição e quadraturas de todos com todos. Como num momento tenso em uma partida de xadrez em que qualquer movimento pode desencadear uma devastação.
                 A não ser pelo Sol, o Rei, protegido pela Dama em trígono, e pelo Bispo e a Torre em sextil.
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                 É um momento de enorme potência cardinal. Lembra das aulas de física? Energia potencial. Pensa bem em qual vai ser o próximo passo, para que a ação proporcione alguma concretude nesse caminho, aponta Saturno com Jupiter. Não!, de tanto pensar o momento passou, brada Marte.
Vênus sugere que dá pra movimentar sem guerra e recomenda uns minutos de pausa tomando um estimulante. Todos ficam confusos. Ela esclarece com um poema de união entre os quatro domiciliados.
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"Café : Noir comme le diable
Chaud comme l'enfer
Pur comme un ange
Doux comme l'amour."
\ Talleyrand \

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"Café: escuro como o diabo
quente como o inferno
puro como um anjo
doce como o amor."⠀


 
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27 outubro 2020

Ervilha

                 Mercúrio entra em Libra pela porta de trás e chama a dona da casa. Por um brevíssimo momento ainda, ela na casa de Mercúrio.
                 Ele disse: olhe em volta, veja o que é invisível nas imagens e nas coisas do mundo. Agora ela tem em mãos uma ervilha, e ela vê o invisível. Que bonito pra uma Vênus mercurial: ela vê a perfeição. Na superfície da esfera dos os pontos estão equidistantes do centro, não há ponto de tensão. Buscar por simetria na esfera chega a ser engraçado. É nisso ela está pensando quando ouve Mercúrio chamar. Ela entra em Libra com a cumbuca de ervilhas nas mãos.
                 Mas mudam-se os signos, mudam-se os parâmetros de perfeição. Mercúrio venusiano foi recém abençoado — e, como esquecer? combusto — pelo Sol no fleumático Escorpião. Portanto assim que vê as ervilhas o que percebe é a sua cor.
                 Cor é emoção.
                 O pintor Kandinsky escreveu, em O espiritual na arte, “O verde é o ponto ideal de equilíbrio da mistura dessas duas cores diametralmente opostas e em tudo diferentes [amarelo e azul]. Os movimentos horizontais anulam-se. Assim como se anulam os movimentos excêntricos e concêntricos. Tudo fica em repouso.”
                 Existem verdes com bastante azuis, chegando no ciano, e existem verdes amarelíssimos, estridentes. Mas não nas ervilhas!
                 Se colocado em um prato da Balança o amarelo do verde erviliano e no outro o azul, o resultado é o Equilíbrio que a Vênus venusiana mostra agora.
                 Kandinsky continua: “Mas o amarelo e o azul contidos no verde, como forças mantidas em xeque, podem voltar a ser atuantes. Há no verde uma possibilidade de vida que falta totalmente no cinzento.”


Ervilhas com molho de tahine, zahtar e hortelã

prepare o molho de tahine:

60g tahine
1 1/2 cS suco de limão
1 dente de alho ralado
sal
3 ou 4 cS água

misture os ingredientes, batendo bem com um garfo ou um pequeno fouet. Regule a textura com a água. Como as ervilhas são delicadas, deixe o molho molinho e suave.

Sirva com as ervilhas cozidas e temperadas com zahtar. Espalhe folhas de hortelã e regue com azeite de oliva.

 

25 outubro 2020

Mercúrio cazimi

                 Mercúrio se coloca na frente do Sol e é como se ele mesmo se tornasse a fonte de luz.
                 Daí a gente lembra que a escrita da luz é a fotografia.
                 No ampliador fotográfico acontece algo semelhante: o negativo (já queimado/combusto no momento em que você abriu o obturador da sua câmera)  é colocado entre a lâmpada e o papel onde a luz é projetada. A luz que o negativo deixa passar queima o papel fotográfico resultando nas partes escuras; onde a luz não chega o papel não queima e ele permanece branco.
                 Na época em que frequentei um laboratório, fiquei obcecada em guardar no bolso tudo que encontrava pelo caminho - e na cozinha, certamente -, pra colocar no ampliador naquele lugar do negativo. Embalagens, folhinhas, sementes, um corpinho com alguma transparência e principalmente casquinhas. Tudo poderia ter uma imagem secreta esperando para ser ampliada pela técnica.
                 Na exposição que fiz com essas imagens, em que objetos de alguns poucos centímetros ganham grandes proporções (algumas com 1m) , eu me sentia uma visitante, também descobrindo tantas novas imagens reveladas.
                 Nesse fotograma, a asa (?) da imagem é a pele de um gomo de mexirica.
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                 Bom domingo de Sol-Mercúrio. Olhe em volta.
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