19 maio 2019

Marte em Câncer regido por Lua em Sagitário


                 Era pra ser um prato assaz nostálgico pensando em Marte em Câncer, daquela nostalgia que nos dá ânimo pra continuar lutando, aí a Lua entrou num signo de fogo e até apareceu um Sol depois de vários dias frios e nublados! A gente precisa de fogo pra esquentar essa panela, claro!
                  Além disso, juntando Câncer com Sagitário, lembrei de uma anotação da Astrolíricas:

                 “'O melhor de ir é poder voltar.' O Caranguejo vai e junto com os passos, cria caminhos de histórias e saudade. Quando volta para trás, se alimenta de tudo isso que deixou.
                 O melhor de ir é poder voltar andando de ré.”
                 Vou contar pra vocês que isso acontece demais com as receitas. Aproveito que a Lua sagitariana vai até bem longe e trago um exemplo que vem do outro lado do mundo e passou por transformações que toda receita – e toda linguagem – passa. Porque está viva.
                 Ao mesmo tempo ela, receita, marca a gente de um jeito que parece fixa. Por exemplo o estrogonofe. Esteve em voga há algumas décadas, e tinha sempre aquele jeitinho de ser preparado e servido. Lembro que o arroz era sempre enformado numa cumbuquinha, enfeitado com uma salsinha, muito chique. A batata palha ficou indispensável. Era uma época de muito creme de leite em tudo, deixando os pratos (inclusive saladas) avelulados, ricos e até bem pesadinhos. Mas eu era criança, podia ficar fazendo a digestão taurinamente por quanto tempo fosse necessário.
                 No preparo, eu trouxe esse sotaque brasileiro do estrogonofe, da década de 80, 90. Que por sua vez trazia o perfume exótico da nobreza russa do séc XVII; também no caminho ganhou um sotaque e uma grafia kitsch afrancesada (como aponta o Silvio Lancellotti). E assim as receitas vão e voltam. Júpiter regente da Lua está retrógrado, e domiciliado. Fogo bom nessa panela. Todo essa essa construção de memória, dále Marte! Alguém pode observar que sim, está tudo muito lindo mas estamos sob efeito de uma lua cheia em escorpião. Bem, observem quanta acidez tem nessa receita: tem a mostarda, tem molho inglês, tem picles picadinho, os ferrõezinhos da batata palha, a história da nobreza russa do séc XVII, no creme azedo que é mostrado por Lancellotti enfatizando o caráter escorpiônico da fermentação, que também é matéria e nutrição do mangue, terreno do caranguejo:
                 “Quem não souber cometer, corretamente, um creme azedo, quem não ousar expor o laticínio à acidez, num desvão da cozinha, de uma noite até 24 horas, apenas falseie o seu paladar final com algumas gotas de suco de limão.“
                 Sim, o texto dele não é nenhum docinho, aliás. Gostaria de apontar também aquela referência sutil a Saturno - que hoje está cuidando da manutenção do seu poder em Capricórnio - logo no começo da receita:
“200g de filé mignon cortados em lascas do tamanho dos dedinhos de uma criança “
                 Aqui no Dodô a gente falseia o creme de leite (porque o leite é do bezerro) e o filé mignon (porque a mãe é do bezerro) mas cortamos o seitan em lascas do tamanho dos dedinhos de uma criança.
                 Falseamos também o brandy porque, como bem sabemos:
                 “Nunca dê bebida a um centauro!”

ferrugem do @zeldonribeiro
o texto do Lancellotti pode ser lido aqui



RECEITA

Comecei deixando de molho 1 xícara de amendoim em bastante água. Então escorri e liqudifiquei esse amendoim com 1 xícara de água nova. Coei.
Na panela, fiz suar um dente de alho e uma folha de louro em azeite de oliva; acrescentei então 1/2 xícara de passata de tomate, o leite de amendoim, temperei com sal, pimenta do reino, páprica picante, 2cc de molho inglês, 2cc de mostarda e deixei misturar bem. Só então acrescentei 2cS de biomassa de banana verde e 1 xíc de seitan cortando em lascas do tamanho de dedinhos de criança. (preferi deixar essa medida em volume caso alguém queira fazer com outro ingrediente, como pts, nata de soja, berinjela etc.)
Salteei em uma frigideira com óleo bem quente cogumelos Paris cortados em lâminas grossinhas e juntei ao estrogonofe. Também alguns pepinos em conserva bem batidinhos. E salsinha.

16 maio 2019

Lua e Spica em sextil com Júpiter




                 "Há um ditado africano que diz que todo grão de milho vai nu ao campo e, de lá, volta vestido e com a boa sorte. Matar a fome dos seus é uma dádiva a que, a priori, somos todos merecedores. No entanto, a disciplina e a inteligência virginianas, atributos que são necessários para que qualquer semeadura alcance o frescor e a fartura da maturidade, terão que ser conquistados sol a sol, honrando o suor dos céus e da própria testa. Enquanto uma mão, pela enxada do tempo, fica calejada, a outra, porta a espiga, pura, com a qual abençoará o pão e tudo o que tocar."* João Acuio, aqui 
                 Hoje acordamos com esse aspecto tão bonito no céu. A Lua passou pelo grau onde está Spica, a estrela fixa da constelação de Virgem, a estrela que fica na mão dela, que nos lembra a colheita. Das aulas a pergunta: "O que você está semeando?" afinal, é disso que depende a colheita.
A Lua, com Spica, em sextil a Júpiter domiciliado.
Para o alto! E avante!

                 A Spica é associada ao trigo mas também ao milho. Como hoje está frio,e é época de milho - respeitemos os ciclos - ofereço um curau de milho. É quase um mingau, dá conforto (Marte entrou em Câncer), dá força pro trabalho, e bem simples de preparar: No liquidificador: 1 e 1/2 xíc de milho verde com 1 xíc de água. Peneirei. Levei à panela com 2cS de leite Supra Soy em pó e 1cS açúcar demerara, porque o leite já é docinho. Mexi até ferver. Canela por cima 🌽

15 maio 2019

Vênus em Touro


                 Agora sim, Touro está taurino; sua regente chegou em casa depois de uma temporada escaldante! Mesmo com o Sol e Mercúrio em Touro não estávamos tão aliviados por causa da regente exilada em signo de guerra.

                "He venido encendida al desierto pa quemar
                 Porque el alma prende fuego cuando deja de amar"

                 Mas agora, sombra e Vênus fresca!
                 Deu vontade de cogumelos. Porque eles moram no verde, nas sombras, na umidade, num lugar sem pressa. Consegue ouvir o barulhinho da água correndo? Dos animais se movendo (inclusive os mosquitos)? E esse perfume de terra?
                 Minha sugestão, bem encorpada, untuosa, úmida e venusiana para esse dia: fazer um risoto com cogumelos frescos.
                 Para preparar o risoto tem que ficar ali no pé do fogão mexendo o arroz, na maciota; até o Mercúrio que está ali junto vai ficar feliz, observando, considerando devagar as mudanças dos aromas, das texturas, das cores, quem sabe querendo experimentar um tempero diferente, quem sabe não; é bom assim do jeito que a gente conhece e gosta também. A Piloto Júpiter escreveu hoje mesmo: "o prazer é a semente da repetição, e a repetição é a semente da estabilidade".
                 Sei que a gente vai ter uma preguiça de lavar uma panela a mais, mas acreditem, vale a pena saltear os cogumelos separadamente e só misturar ao arroz bem no final do preparo!
Receita de risoto não falta nem na rede nem no blog do Dodô, risoto aqui ganha domicílio, exaltação e júbilo!! Algumas receitas da casa:






09 maio 2019

Céu da Boca: o Touro solar e o Leão lunar




                 O Touro solar e o Leão lunar

                 No dia 11 de maio será nosso primeiro Céu da Boca na Saturnália!

                 Sol em Touro, em trígono com Saturno em Capricórnio, a gostosura taurina livre de rococós venusianos. Aliás a Vênus a 25 graus de Áries já sente o cheirinho da grama mas ainda está na fogueira.
Tem mais fogo nesse céu: a Lua em Leão! Disposta pelo Sol em Touro, disposto pela Vênus tórrida.

                 Efemérides de cores quentes: a abóbora corpulenta assada na fogueira, arvorezinhas de couve-flor em amarelo ouro, com o sabor telúrico da cúrcuma em trígono com o acre saturnino.

                 Trigo, sempre. Um dos nossos cereais ancestrais. Como diz uma das máximas do João Acuio:

                 "Céu é um registro mnemônico, serve para lembrar a semeadura do Tempo."

08 maio 2019

Céu da Boca - na Saturnália



                 “Assim no alto como embaixo, tudo é milagre de uma única coisa.”¹
                 Da tradução entre o que está no alto e o que está embaixo trata a Astrologia: a linguagem do Saturno, o Tempo, trazida por Mercúrio, deus que conecta alhos com bugalhos, “demonstrando o seu poder em conectar e desconectar o mundano com o sagrado, o leva-e-traz do cotidiano com o ritualístico.”²
                 Várias linguagens dão conta disso, a cozinha é uma delas. A linguagem da cozinha também é do Tempo: os tempos dos seus processos internos, o tempo do compartilhamento entre os comensais, o tempo da agricultura, e também é regida por Mercúrio em pés, mãos, olhos, nariz, confabulações, memórias, epifanias.
                 O Céu da Boca, que acontecerá na Saturnália vai apresentar essa linguagem. Com muito, muito tempo à mesa de compartilhamento entre os comensais.

1: Tábua de Esmeralda, de Hermes Trimegisto
2: Maíra Fernandes, Sol Invictus Astrologia 

06 maio 2019

Mercúrio em Touro


                 
                 Touro traz a atenção ao material e sensorial - e já é um clichê tratar os taurinos como gulosos; isso me faz pensar na linguagem da comida. 
                 Além do gosto venusiano pela mesa, Touro exalta a Lua. As comidas trazem um vocabulário afetivo riquíssimo, além do cultural, além do biológico. 

                 Falando em biológico, vocês conseguem sacar quando o corpo está pedindo algum nutriente? Normalmente é através da vontade, linguagem bem taurina, nénão? Lembro que acordava às vezes com uma vontade louca de comer fígado, até o dia em que descobri que a beterraba é rica em ferro, e meu vocabulário mudou e a vontade também foi atualizada de acordo. Isso sempre me impressiona!

                 E muito mais do que isso, os alimentos estão impregnados de símbolos, de afetividade, de cultura. Li ontem: "A salvo da escassez de alimentos imposta por fatores externos, estamos mais livres do que nunca para projetar nos alimentos significados que nada têm a ver com mitigar necessidades alimentares, buscando com isso, através do comer, satisfazer nossas necessidades afetiva ou de realização sexual, ou dissimular raivas e dores. O alimento também pode ser o depositário de nossos medos secretos e de nossas fantasias de uma saúde perfeita."* 

                 O que eu proponho hoje é a atenção aos apetites, especialmente esses ataques à geladeira que não são por fome; ou melhor, você tem fome de que?
                 Proponho também que, à mesa, conversem sobre a comida, a que está ali na sua frente, não a que está em tal lugar no passado ou no futuro. Ou se você está sozinho, pode conversar com a comida mesmo, ela tem tanto tanto tanto a dizer! 

* JACKSON Eve. Alimento e Transformação

04 maio 2019

Lua Nova em Touro disposta por Vênus em Áries



                 “Ah, um tagliatelle, hein, pessoal!” 
                 Hoje a Lua chegará no mesmo ponto onde está o Sol, em Touro, onde ela já se exalta.Tão gostoso pensar na Lua, nutridora, mamma, exaltada, encontrando o Sol marcando um novo começo de ciclo. Mas, espere!,a Vênus está em Áries! Então nada de doce de leite ainda, afinal, Áries é a energia colérica da ignição, daquele fogo interno que não dá sossego!
                 Vamos olhar também (foi só falar de Áries que o olho já pulou pra outra parte do mapa, não sossega mesmo!) que no momento da conjunção Sol-Lua, o signo que ascende no horizonte é Sagitário, o signo que ganha espaços, que trata de esperança, de fé.
Pra mais do que isso, eu não poderia falar nada melhor do que fez Italo Calvino num conto das Cosmicômicas, onde o início da expansão do universo começa com um impulso nutridor e generoso, de uma grande Lua em Touro, a sra. Ph(i)NkO.
                 Certeza que ele escreveu esse conto pra essa lunação! Lembrando ainda que Marte em Gêmeos está se opondo ao Júpiter no ascendente, a gente pode ver isso nos diálogos e picuinhas entre alguns personagens. Maravilhoso! Quando você estiver se sentindo desnutrido, vai pro Calvino
                 O conto pode ser lido aqui

22 abril 2019

Sol em Touro, Vênus em Áries


                 O Sol que estava exaltado em Áries chegou há pouco no signo de Touro, dando uma diminuída no fogaréu do céu.
                 A energia colérica impetuosa ariana materializada no corpo do touro.
                 O cuscuz é preparado na panela, no fogo, mas depois de enformado fica ali, tranquilão, repousando. É gostoso em temperatura ambiente, é gostoso gelado, e juro que sempre gostei muito mais de raspar uma panela de cuscuz do que uma de brigadeiro!
                 É imprescindível a ardência da pimenta distribuída no corpão do cuscuz. Prezamos pela harmonia, claro; estamos em território venusiano mas ela mesma, em Áries apimentando os ânimos e toda essa gostosura.
"De todo o meu passado
Boas e más recordações
Quero viver meu presente
E lembrar tudo depois
Nessa vida passageira
Eu sou eu, você é você
Isso é o que mais me agrada
Isso é o que me faz dizer
Que vejo flores em você"

                 A receita já postei uma vez então é só seguir aqui

17 abril 2019

Mercúrio em Áries - Marte em Gêmeos



Mercúrio está em Áries a partir de hoje; e assim o deus do jeito de pensar e de falar ganhou o fogo do carneiro. É cabeçada. É o pensamento e a fala autêntica, imediata.


"Com o coração à flor da boca"; foi assim que vi uma vez a Laerte Coutinho definir a palavra CORDIAL. Como pode uma frase tão linda? A Laerte tem Marte em Gêmeos, como o de hoje. O de hoje faz mútua recepção com Mercúrio em Áries. Estou muito curiosa pra ver, ou melhor ainda, ouvir muita coisa durante esse período.
Que as coeur-dialidades tenham resultados criativos e nutritivos, esperamos. :)



O que tá dentro explodindo, se expressando, pra todo lado: cabeçadas nas paredes, na tampa, no que tiver na frente. Acredito demais na pureza do Carneiro, apesar dos arroubos imaturos; são duas faces da mesma moeda afinal.

01 abril 2019

Marte em Gêmeos


                Ontem Marte saiu da solidez da primavera fixa de Touro para entrar no signo de Gêmeos, a privamera mutável, as palavras, os ventos. Aqui, nossa arma é a astúcia, a comunicação, a pesquisa, em suma, o que está ligado à inteligência, pois Gêmeos é regido por Mercúrio.
Bom lembrar que logo o próprio Mercúrio entrará no signo de Áries, ficando em mútua recepção com Marte, e, claro, vai ficar um Mercúrio impulsivão! Então é melhor ter feito a tarefa, pesquisado sobre os assuntos que podem te confrontar, conhecer as possibilidades, porque quando você tiver uma reação, já tem alguma base para agir. Planejamento não é uma palavra aqui, é conhecimento para saber como agir na hora. Como tão bem lembrou a @vespertinastrologia esses dias, "é preciso ser leve como um pássaro, não como uma pluma." (Paul Valéry). Estudem, estudem. Por dois.

Cortei um repolho pequeno em gomos, temperei com sal, mostarda em grãos e azeite e levei ao forno com o grill ligado. Na Grécia de 400aC, antes do início da comercialização da pimenta, a mostarda era o sabor mais quente do Mediterrâneo*. Quando Mercúrio passar de Peixes para Áries a gente pega mais pesado na pimenta! 
*DALBY, Andrew. Sabores perigosos. 

cerâmica da @spiralceramicas

31 março 2019

Lua em Aquário



                 Lua em Aquário, minguando, e eu não vou nem me expandir muito buscando frases, buscando as ideias pra concatenar, ainda mais que já tem esse texto da @solinvictusastrologia que, uau!, palavra por palavra, com clareza e com riqueza já me nutriram hoje; e se a Maíra me permite, ainda compartilho essa água dela com vocês 🌙

"A Lua segue em sua fase minguante, pelo signo de Aquário: aquele que narra o mito sobre o humano levado pelos deuses ao topo do monte Olimpo, passando a viver distante de seu lar - mas que, desde então, compartilha a água sagrada de um jarro aos seus iguais, despejando-a em forma de chuva a partir do degelo das montanhas.
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E se a Lua é o recipiente que simboliza tudo aquilo que temos em comunhão - uma língua matriz, o pertencimento a uma família, um povo -, estando ela em Aquário, portanto peregrina; é como se caminhasse pelas margens do mundo tentando encontrar, ainda que de maneira distanciada, morada no que há de mais comum: a humanidade presente em cada um de nós.
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O mitólogo Junito de Souza Brandão diz que a Lua, por sua natureza essencialmente úmida, era chamada de “dispensadora de águas”, portanto associada não apenas às chuvas, como também às ancestrais mulheres aguadeiras, que carregam seus baldes pelas comunidades afora. Mas sendo Aquário um signo do elemento ar - ligado às ideias -, a água que esta Lua hoje leva na cabeça é na verdade feita das reflexões sobre o que podemos fazer desse tempo que habitamos. Afinal habitar - uma casa, uma cidade, uma vida comunitária, ou seja, política - é um verbo lunar. Do latim “habitare”, de mesma raiz para hábito, tem relação direta com o conceito grego “éthos”: sobre todo conjunto de ideais compartillhado por qualquer coletividade.
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A Lua míngua em Aquário, este signo considerado como o mais humano do zodíaco - despejando de seu jarro ética para dar de beber aos que têm sede por habitar um mundo melhor.
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☼ Maíra Fernandes "


foto da @media.lunas que também sem cerimônias compartilha seu conhecimento aos quatro ventos ♥