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17 setembro 2010

'Receitas requintadas em que a morte é o principal ingrediente'


"Arrume as folhas em torno do prato de servir. Molhe-as com a vinagrete. Toste fatias de pão, uma por pessoa; coloque uma rodela de queijo de cabra sobre cada uma e passe-as todas sob o fogo da grelha. Retire assim que o queijo começar a formar bolhas e a dourar. Ponha as torradas com o queijo nos pratos arrumados e sirva. Temos, aqui, uma entrada simples, mas que apresenta contraste agradável de calor e frescor, o frescor da salada e o calor, com sabor a caça, das proteínas de seu companheiro.
O interesse filosófico do queijo reside no fato de que suas qualidades dependem da ação das bactérias. Trata-se, como observou James Joyce, do 'cadáver do leite', de leite morto, com bactérias vivas. Processo semelhante de decomposição controlada vem a ser o da cura da caça. Certo grau de apodrecimento amacia a carne, tornando-a saborosa, embora poucos ainda obedeçam àquele preceito do século XIX que reza que o faisão pode ser comido a partir do momento em que o primeiro verme cai no chão. No caso da carne e da caça, a ação das bactérias é um desiderato e não uma necessidade, à diferença do que ocorre com o queijo. O Velho Testamento captou esse ponto, conforme consta da pergunta de Jó ao Senhor: 'Porventura não me mungiste como leite, e coagulaste cmo queijo?'. Coagular o queijo assemelha-se à aquisição de sabedoria e da maturidade na vida humana. Os dois processos implicam reconhecimento e absorção do fato de ser a vida doença incurável, com índice de mortalidade da ordem de cem por cento - forma segura de morte lenta."

In: LANCHESTER, John. Gula - Um Romance (Receitas requintadas em que a morte é o principal ingrediente). São Paulo: Companhia das Letras, 1996. pág. 45

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