dodô

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26 dezembro 2011

A FORMA DO ESPAÇO


Italo Calvino

As equações do campo gravitacional que relacionam a curvatura do espaço à distriguição da matéria já estão começando a fazer parte do raciocínio comum.

Cair no vácuo como eu caía, nenhum de vocês sabe o que isso quer dizer. Para vocês cair significa tombar, por exemplo, do vigésimo andar de um arranha-céu, ou de um avião que se avaria em vôo: precipitar-se de cabeça para baixo, bracejar um pouco no ar, e logo a terra vem se aproximando e levamos um grande tombo. Pois lhes falo, ao contrario, de um tempo em que não havia embaixo nenhuma terra nem coisa alguma de sólido, nem mesmo um corpo celeste na distância que pudesse nos atrair para a sua órbita. Caía-se assim, indefinidamente, por um tempo indefinido. Afundava no vazo até o limite extremo em cujo fundo é imaginável que se possa afundar, e lá chegando mais abaixo, extremamente longe dali, e continuava a cair para alcançá-lo. Não havendo pontos de referência, não tinha idéia se a minha queda era precipitada ou lenta. Pensando bem, não havia provas sequer de que estivesse de fato caindo: quem sabe estava permanentemente imóvel no mesmo lugar, ou me movia no sentido ascendente; visto que não havia nem em cima nem embaixo, tudo não passava de questões nominais e dava no mesmo continuar pensando que caía, como era natural que pensasse.
Admitindo-se, portanto, que caíssemos, caíamos todos com a mesma velocidade sem qualquer impedimento; de fato estávamos sempre a bem dizer na mesma altura, eu, Úrsula H’x, o tenente Fenimore. Não tirava os olhos de cima de Úrsula H’x porque era muito bonita de se ver, e mantinha na queda uma atitude ágil e descontraída: esperava conseguir alguma vez interceptar o seu olhar, mas Úrsula H’x ao cair estava sempre ocupada em lixar e polir as unhas ou em passar o pente nos cabelos longos e lisos, e jamais voltava o olhar para mim. Para o tenente Fenimore tampouco, devo dizer, muito embora ele fizesse tudo para atrair sua atenção.
Uma vez o surpreendi – pensava que eu não estivesse vendo – a fazer sinais para Úrsula H’x: primeiro batia os dois indicadores estendidos um contra o outro, depois fazia um gesto giratório com uma das mãos, em seguida apontava para baixo. Em suma, parecia aludir a um entendimento com ela, a um encontro para mais tarde, em alguma localidade lá embaixo onde iriam se reunir. Tudo história, sabia muito bem: não havia encontros possíveis entre nós, proque nossas quedas eram paralelas e entre nós mantinha-se sempre a mesma distância. Mas o fato de que o tenente Fenimore metesse na cabeça idéias desse gênero – e procurasse metê-las na cabeça de Úrsula H’x – me enervava; embora ela não lhe desse atenção e até mesmo trombeteasse levemente com os lábios, voltando-se – me parecia não haver dúvidas – para ele. (Úrsula H’x caía revolvendo-se sobre si mesma com movimentos indolentes como se se espreguiçasse no leito e era difícil dizer se um gesto seu se dirigia mais a um que a outro ou se estava gracejando consigo mesma como de costume.)
Eu também, naturalmente, não sonhava com outra coisa senão encontrar-me com Úrsula H’x, mas, dado que em minha queda seguia uma reta absolutamente paralela à sua, pareceu-me fora de propósito manifestar um desejo irrealizável. Decerto, querendo bancar o otimista, sempre restava a possibilidade de, continuando as nossas duas paralelas até o infinito, chegar o momento em que elas haveriam de se tocar. Essa eventualidade bastava para me dar alguma esperança e até mesmo manter-me em contínua excitação. Direi que um encontro de nossas paralelas era algo que eu havia sonhado tanto, em todas as suas particularidades, que agora fazia parte de minha experiência como se já o tivesse vivido. Tudo aconteceria de um momento para o outro, com simplicidade e naturalidade: depois de tanto andarmos separados sem podermos nos aproximas um palmo que fosse, depois de tanto havê-la sentido estranha, prisioneira de seu trajeto paralelo, eis que a consistência do espaço, de impalpável que sempre havia sido, se tornaria mais tensa e amo mesmo tempo mais mole, um espessamento do vazio que pareceria vir não de fora mas de dentro de nós, e nos estreitaria juntos eu e Úrsula H’x (já me bastava fechar os olhos para vê-la à minha frente, num gesto que sabia seu mesmo se diferente de todos os gestos habituais: os braços estendidos para baixo, ao longo do corpo, torcendo os pulsos como se se espreguiçasse e ao mesmo tempo indiciando uma contorção que era também uma forma quase sinuosa de se oferecer), e eis que a linha invisível que eu percorria e a percorrida por ela se tornariam uma linha única, ocupada por uma mistura de mim e dela, na qual tudo o que nela era macio e secreto acabava penetrado por mim, ou melhor, envolvia e, quase direi, sugava tudo aquilo que em mim até ali sofrera a tensão de estar sozinho e separado e enxuto.
Acontece aos sonhos mais belos transformarem-se de repente em íncubos e assim me vinha amiúde à mente que o ponto de encontro de nossas duas paralelas podia ser aquele em que se encontravam todas as paralelas existentes no espaço, e assim iria assinalar não apenas o encontro entre mim e Úrsula H’x mas igualmente – perspectiva execrável! – o do tenente Fenimore. No momento exato em que Úrsula deixasse de me se estranha, um estranho com seus bigodinhos finos e negros se veria compartilhando nossa intimidade numa forma inextricável; esse pensamento bastava para me atirar no mais torturante ciúme: ouvia o grito que nosso encontro – meu e dela – nos arrancava fundir-se num uníssono espasmodicamente jubiloso e eis que – gelava só de pensar! – de tudo isso se destacava o grito de Úrsula violentada – assim imaginava em minha invejosa parcialidade – pelas costas, e ao mesmo tempo o grito de vulgar triunfo do tenente, mas talvez – e aqui meu ciúme atingia o delírio – esses gritos – dele e dela – podiam também não ser tão diferentes e dissonantes, somar-se num único grito de perfeito prazer, distinguindo-se do grito desfeito e desesperado que brotaria de meus lábios.
Nesse alternar de esperanças e apreensões prosseguia em minha quda, sem, no entanto, deixar de escrutar as profundidades do espaço para ver se alguma coisa anunciava uma alteração, atual ou futura, de nossas condições. Uma ou duas vezes consegui avistar um universo, mas era muito distante e se mostrava minúsculo, pequeníssimo, muito distante à esquerda ou à direita; tive tempo apenas de distinguir um certo número de galáxias como pontinhos luminosos agrupadas em amontoados sobrepostos que giravam com um débil zumbido, e já tudo havia se desvanecido da forma como surgira, para cima ou para o lado, a ponto de ficar em dúvida se não teria sido uma ilusão de vista.
- Olhe lá! Olhe lá! Lá está um universo! Olhe só! Ali tem alguma coisa! – gritava a Úrsula H’x faendo um sinal naquela direção, mas ela, a língua serrada entre os dentes, estava toda entregue a acariciar a pele lisa e lustrosa das pernas à procura de raríssimos e quase imperceptíveis pêlos supérfluos que ela erradicava com um seco arrancar das unhas em pinça, e a única indicação de que tivesse compreendido meu sinal era a maneira com que estendia uma das pernas para cima, como para desfrutar – poderia dizer-se – com sua metódica inspeção um pouco da luz que reverberava daquele longínquo firmamento.
Inútil citar o desdém que o tenente ostentava naqueles casos em relação ao que eu podia ter descoberto: dava de ombros – o que lhe ocasionava um sobressair das dragonas, do talabarte e das condecorações de que estava inutilmente arreado – e virara-se par ao lado oposto rindo à socapa. Ao passo que em outras vezes (quando estava certo de que eu olhava para o outro lado) era ele que, para despertar a curiosidade de Úrsula (e então era minha vez de rir, vendo que ela, como resposta, revolvia-se sobre si mesma numa espécie de cabriola virando para ele o traseiro: um gesto indubitavelmente pouco respeitoso embora belo de se ver, tanto que eu, depois de me alegrar vendo nisso uma humilhação para o meu rival, me surpreendia a invejá-lo como se se tratasse de um privilégio), indicava um esmaecido ponto que fugia pelo espaço, gritando:
- Veja lá! Um universo! Enorme! Eu vi! É mesmo um universo!
Não digo que mentia: afirmações do gênero, pelo que sei, podiam ser tanto verdadeiras quanto falsas. Que vez por outra passávamos ao largo de um universo, estava provado (ou antes, que um universo passava ao largo em relação a nós), mas não se podia dizer que havia vários universos espalhados pelo espaço ou se era sempre o mesmo universo como qual continuávamos a cruzar girando numa misteriosa trajetória, ou se ao contrario não havia universo algum e aquilo que acreditávamos ver era a miragem de um universo que talvez tivesse um dia existido e cuja imagem continuava a ricochetear pelas paredes do espaço como o ribombar de um eco. Mas podia ainda ser que os universos sempre estivessem ali, fixos em torno de nós, e nem sonhassem mover-se, e nós tampouco nos movíamos, e tudo estava parado para sempre, sem tempo, numa escuridão pontilhada apensas de súbitas cintilações quando alguma coisa ou alguém conseguia por um momento destacar-se daquela morna ausência e esboçar a aparência de um movimento.
Hipóteses todas dignas de serem levadas em consideração, e que me interessavam apenas naquilo que diziam respeito à nossa queda e à possibilidade de ao menos conseguir tocar Úrsula H’x. em resumo, ninguém sabia de nada. E então, por que aquele presunçoso Fenimore assumia às vezes uns ares de superioridade, como se estivesse certo de seu ponto de vista? Havia percebido que o método mais seguro de me irritar era fingir que tinha com Úrsula H’x uma familiaridade de longa data. A certo ponto Úrsula se punha a descer requebrando, com os joelhos juntos, deslocando o peso do corpo ora para lá ora para cá, como se ondulando nem ziguezague cada vez mais amplo: tudo para espantar o tédio  daquela queda interminável. O tenente então punha-se também a ondular, procurando acompanhar o ritmo dela, como se seguisse a mesma pista invisível, até mesmo como se dançasse ao som de uma mesma música só audível pelos dois, que ele ia até o ponto de fingir que assoviava, e pondo nisso, ele apensas, uma espécie de subentendido, de alusão a uma brincadeira entre velhos companheiros de boemia. Era tudo um blefe, imaginem se eu não sabia, mas bastava-me meter na cabeça a ideia de um encontro entre Úrsula H’x e o tenente Fenimore já pudesse ter ocorrido, quem sabe quanto tempo antes, na origem de suas trajetórias, para que tal idéia me provocasse um travo doloroso, como uma injustiça cometida conta mim. Refletindo-se, porém: se Úrsula e o tenente tivessem em alguma época ocupado o mesmo ponto do espaço, era indicio de que suas respectivas linhas de queda se puseram a distanciar-se e presumivelmente continuavam se distanciando. Ora, naquele lento mas contínuo distanciar-se do tenente, nada mais fácil que Úrsula se aproximasse de mim; portanto, o tenente tinha poucas razões para se envaidecer de suas antigas interseções: era para mim que o futuro sorria.
O raciocínio que me levava a essa conclusão não bastava para tranqüilizar-me interiormente: a eventualidade de que Úrsula H’x já tivesse encontrado do tenente era em si uma ofensa que, se me tivesse sido feita, jamais poderia ser resgatada. Devo acrescentar que passado e futuro eram para mim termos vagos, entre os quais não conseguia fazer distinção: minha memória não ia além do presente interminável de nossa queda paralela, e o que podia ter acontecido antes, dado que não se podia recordar, pertencia ao mesmo mundo imaginário do futuro, e com o futuro se confundia. Assim eu podia também supor que, se alguma vez duas paralelas haviam partido do mesmo, ponto, estar teria de ser a linhas que seguíamos eu e Úrsula H’x (neste caso era a nostalgia de uma identidade perdida que nutria o meu ansioso desejo de encontrá-la); mas eu relutava em dar crédito a tais hipóteses, porque podiam implicar um distanciamento progressivo entre nós e talvez um aproamento nos braços engalanados do tenente Fenimore, mas sobretudo porque só sabia sair do presente imaginando um presente diverso, e nada além disso me importava.
Talvez fosse esse o segredo: identificar-se tanto no próprio estado da queda a ponto de conseguir compreender que a linha seguida ao cair não era aquela que parecia ser mais outra, ou seja, conseguir mudar aquela linha da única forma como poderia ser mudada, quer dizer, fazendo-a tornar-se a que verdadeiramente sempre havia sido. Mas não foi concentrando-me em mim mesmo que me veio essa idéia, e sim observando quanto Úrsula H’x era bela mesmo vista por detrás, e notando, no momento em que passávamos à vista de um sistema de constelações extremamente distante, um arqueamento da coluna e  uma espécie de estremecimento do traseiro, não tanto do traseiro em si, mas um deslizamento externo que parecia comprimir o traseiro provocando uma reação não desfavorável do próprio traseiro. Bastou essa fugas impressão para fazer-me encara a situação de um modo novo: se era verdade que o espaço com algo dentro era diferente do espaço vazio porque a matéria provoca nele uma curvatura ou tensão que obriga todas as linha nele contidas a se estenderem ou a se curvarem, então a linha que cada um de nós seguia era uma rela apenas no modo em que uma reta pode ser uma reta, ou seja, deformando-se na medida em que a límpida harmonia do vazio global se deforma pelo incomodo da matéria, isto é, enroscando-se em torno daquele nódulo ou verruga ou excrescência que é o universo no meio do espaço.
Meu ponto de referencia era sempre Úrsula e de fato uma certa maneira de avançar como que voltejando podia tornar mais familiar a idéia de que nossa queda era um aparafusar e desaparafusar numa espécie de espiral que às vezes se contraía, às vezes se alargava. Mas Úrsula tomava essas debandadas – olhando-se bem – ora num sentido ora noutro, e assim o desenho que traçávamos era mais complicado, o universo era, pois, considerado não uma intumescência grosseira li plantada como um nabo, mas uma figura angulosa e pontiaguda em que a cada reentrância ou saliência ou facetamento correspondiam cavidades e bossagens e denteações do espaço e das linhas por nós percorridas. Esta era, no entanto, ainda uma imagem esquemática, como se tivéssemos de lidar com um solido de paredes lisas, uma compenetração de poliedros, um agregado de cristais; na verdade o espaço no qual nos movíamos era todo ameado e perfurado, com agulhas e pináculos que se irradiavam de todas as partes, com cúpulas e balaústres e peristilos, com bífores e trifórios e rosáceas, e nós, embora nos parecesse cair sempre e direto para baixo, na realidade escorríamos nas bordas de modinaturas e frisos invisíveis, como formigas que para atravessar uma cidade seguem percursos não traçados sobre o pavimento das ruas mas ao longo das paredes e tetos e das cornijas e lustres. Ora, falar em cidade é ter ainda em mente figuras de qualquer forma regulares, com ângulos retos e proporções simétricas, ao passo que em vez disso devemos ter sempre presente como o espaço se recorta em torno de aça cerejeira e de cada folha de cada ramo que se move ao vento, e de cada borda serrilhada de cada folha, e mesmo como se modela em torno das nervuras de cada folha, e da rede de nervuras no interior de cada folha e sobre os ferimentos de que as flechas de luz as crivam a cada instante, tudo se imprimindo em negativo na pasta do vazio, de modo que não existe nada que não tenha deixado lá seu vestígio, todos os vestígios possíveis de todas as coisas possíveis e, juntamente, cada transformação desses vestígios instante por instante, de modo que a verruguinha que cresce embaixo do nariz de um califa ou a bolha de sabão que pousa sobre o seio de uma lavadeira modificam a forma geral do espaço em todas as suas dimensões.
Bastou-me compreender que o espaço era feito dessa maneira para me dar conta de que nele se formavam certas cavidades macias e acolhedoras como redes onde eu poderia me encontrar unido a Úrsula H’x e balançar-me junto dela mordendo-nos mutuamente pelo corpo inteiro. As propriedades do espaço eram tais que uma paralela prendia de um lado e outra de outro; eu, por exemplo, me precipitava dentro de uma daverna tortuosa ao passo que Úrsula H’x era sugada por um subterrâneo que se comunicava com aquela mesma caverna de modo que nos encontrávamos a rolar juntos sobre um tapete de algas numa espécie de ilha subespacial enlaçando-nos em todas as posturas e cambalhotas possíveis, até que a determinado momento nossas duas trajet´roas retomavam sua diração retilínea e prosseguiam cada uma por si como se nada tivesse acontecido.
A granulosidade do espaço era porosa e acidentada, com fendas e dunas. Atentando bem, podia perceber o quanto o percurso do tenente Fenimore passava pelo fundo de um cânion estreito e tortuoso; então me colocava no alto de um barraco e no momento exato me atirava em cima dele tratando de atingi-lo com todo o meu peso sobre as vértebras cervicais. O fundo desses precipícios do vácuo era pedregoso como o leito de um reio seco, e o tenente Fenimore ao cair ficara com a cabeça engastada entre dois aguilhões de rocha que afloravam e eu já lhe comprimia um joelho contra o estômago enquanto ele estava a pondo de me esmagar dos dedos nos espinhos de um cacto – ou dorso de um porco-espinho? (em todo o caso, espinhos que correspondem a certas contrações agudas do espaço) – para que eu não conseguisse me apoderar da pistola que lhe havia feito derrubar com um chute. Não sei como fui me encontrar um instante depois com a cabeça afundada na granulosidade sufocante dos estratos onde o espaço cede desmanchando-se em areia; cuspi, aturdido e ofuscado; Fenimore havia conseguido recuperar a pistola; uma bala assoviou em meu ouvido, desviada por uma longa proliferação do vácuo que se elevava em forma de formigueiro. E eu já estava em cima dele com as mãos em sua garganta para estrangulá-lo, quando as mãos se bateram uma contra a outra com um plaf!: nossas vias voltavam a ser paralelas e eu e o tenente Fenimore descíamos mantendo nossa distancia habitual e voltando as costas um para o outro como duas pessoas que fingem jamais se terem visto ou conhecido.
O que podíamos considerar apensas Omo linhas retas unidimensionais eram de fato semelhantes a linhas de uma escrita cursiva traçadas numa página branca por uma pena que transfere palavras e trechos de frase de uma linha para outra com inserções e remissões na pressa de terminar uma exposição conduzida mediante aproximações sucessivas e sempre insatisfatórias, e assim seguíamos, eu e o tenente, Fenimore, encondendo-nos por trás dos ilhoses dos “l”, principalmente os “l” de “paralelas”, para atirar ou proteger-nos das balas e eu me fingia de morto e esperava que Fenimore passasse para dar-lhe uma rasteira e arrastá-lo pelos pés fazendo-lhe bater com o queixo contra o fundo dos “v” e dos “u” e dos “m” e dos “n” que escritos em cursivo todo igual tornavam-se um sacolejante suceder-se de buracos no pavimento como, por exemplo, na expressão “universo unidimensional”, para depois abandoná-lo estendido num ponto todo riscado de rasuras e dali erguer-me inteiramente manchado de tinta para correr em direção a Úrsula H’x que queria bancas a esperta infiltrando-se entre as franjas dos “f” que se afinavam até se tornarem filiformes, mas eu a agarrei pelos cabelos e preguei-a num “d” ou num “t” como agora os escrevo na pressa, tão inclinados que se pode deitar em cima deles, depois escavamos um nicho no “g” de “gruta”, uma toca subterrânea que podemos adaptar à vontade às nossas dimensões ou tornar ainda mais recolhida e quase invisível ou ainda colocar em sentido horizontal para estarmos mais confortavelmente deitados. Embora naturalmente essas mesmas linhas em vez de sucessões de letras e de palavras possam muito bem ser desenroladas em seu fio negro e tecidas em linhas retas contínuas paralelas que não significam outra coisas senão elas mesmas em seu contínuo escorrer sem encontrar-se jamais assim como jamais nos encontraremos em nossa queda continua. Úrsula H’x e eu, o tenente Fenimore  e todos os demais.

In: Calvino, Italo. As Cosmicômicas. São Paulo: Companhia das Letras, 1999

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