dodô

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12 dezembro 2011

O Efeito da Comida



( conto retirado de Fabulas e Lendas da Índia – Editora Shakti)

                               Durante a luta pela Independência da Índia, nem todos os que ocupavam a cela dos condenados à morte eram criminosos brutais. Raghvir era um jovem refinado e sensível, que sabendo que lhe restavam apenas algumas semanas de vida, voltou-se para os Upanishads e a Gita à procura de conforto. Um Swami tinha permissão de visitá-lo regularmente para lhe dar assistência espiritual em seus últimos dias. O Swami encontrava Raghvir sempre paciente e alegre, receptivo às verdades maravilhosas das escrituras. Conversavam sobre outras coisas também.
                        Mas um dia, quando o Swami chegou, Raghvir estava num estado de espírito muito diferente, cansado, ansioso e infeliz.  Quando perguntou o que perturbava a equanimidade do jovem, Raghvir respondeu:
                             -   Durante estes últimos três dias, tenho sido assombrado por horríveis pensamentos – mais que pensamentos, imagens muito vívidas..... de algo tão terrível que não sei como chegaram até mim.  No entanto, não posso me livrar delas. Não posso dormir direito porque estas cenas horrorosas atormentam-me como pesadelos e, mesmo agora, enquanto estou lhe contando, posso ver a cena toda, concretamente,  diante de meus olhos.
                        Sua aflição era óbvia. E quando Swami perguntou mais, ele continuou:
                       
                        - O Senhor sabe, Swamiji, como eu amava minha mãe – como ela me era querida. E contudo.....vejo-me entrando no pátio de uma pequena casa de tijolos – não é a casa de minha mãe,  porém ela está sentada em um dos quartos que dá para o pátio, escovando seu cabelo. E Swami, vejo-me precipitando sobre ela, segurando-a pelos cabelos e arrastando-a para o pátio, e enfiando-lhe uma grande faca várias vezes. Ela está gritando e lutando, há sangue por toda a parte, e eu continuo a apunhalá-la continuamente!
                        O jovem terminou sua história soluçando e escondeu o rosto, tremendo. O Swami não disse nada, apenas colocou a mão no ombro do rapaz em solidariedade silenciosa, durante um momento. Quando Raghvir ficou mais calmo, o Swami perguntou –lhe, como se fosse mudar de assunto:
-          O quê você comeu nesses últimos dias?
                             -     Oh! Só o que eles nos dão, a coisa usual. Mas talvez eles tenham trocado de cozinheiro, agora a comida parece um pouco mais gostosa  que antes.
                        Quando  o Swami deixou Raghvir, foi direto ao guarda da prisão para conversar um pouco  com ele. Perguntou-lhe:
-          Quem cozinha para os prisioneiros?
O guarda  sorriu e respondeu:
-          Escolhemos um dos prisioneiros para faze-lo. Sabe esta semana arranjamos um verdadeiro cozinheiro. Está aqui porque matou a mãe.
                         E contou, com detalhes, como o sangrento assassinato tinha sido cometido. Era exatamente como Raghvir tinha visto com os olhos de sua mente.
                    O Swami sugeriu suavemente:
                        - Olhe, Raghvir é muito sensível e um excelente sujeito. Você acha que pode conseguir alguma outra pessoa para fazer usa comida?
                        Assim fizeram e Raghvir terminou seus dias em paz.


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