dodô

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27 fevereiro 2014

da sra. Clara para Juliet



8 de abril de 1946


Cara Srta. Ashton,

Ouvi falar da senhorita. Fui membro da sociedade literária, embora possa apostar que ninguém jamais lhe mencionou meu nome. Não li nenhum livro escrito por um escritor morto. Li algo que eu mesma escrevi – meu livro de receitas culinárias. Ouso dizer que meu livro provocou mais lágrimas de tristeza do que qualquer outra coisa que Charles Dickens tenha escrito.

Escolhi ler acerca da maneira correta de assar um leitão. Unte o pequeno corpo com manteiga, eu disse. Deixe a gordura escorrer e fazer o fogo crepitar. Do modo que li, dava pra sentir o cheiro do porco assando, ouvir sua pele rachar. Falei sobre os meus bolos de cinco camadas – usando uma dúzia de ovos -, sobre meus confeitos de algodão-doce, minhas bolas de chocolate e rum, meus pães-de-ló com creme. Bolos feitos com farinha branca de boa qualidade – não aquele grão partido e aquela semente de passarinho que estávamos usando na época.

Bem, senhorita, minha plateia não suportou. Ficou nervosa ao ouvir minhas receitas gostosas. Isola Pribby, que nunca teve modos, gritou que eu a estava atormentando e que ela ia enfeitiçar minhas panelas. Will Thisbee disse que eu ia queimar como minhas cerejas jubileu. Então Thompson Stubbins me xingou e foi preciso Dawsey e Eben juntos para me tirar de lá.

Eben ligou no dia seguinte para pedir desculpas pela falta de educação da sociedade. Ele pediu que eu lembrasse que a maioria deles tinha ido para a reunião depois de jantar sopa de nabo (sem nem um osso dentro para dar gosto) ou batatas aferventadas e grelhadas em ferro quente, já que não havia gordura para fritá-las. Ele me pediu que fosse tolerante e que lhes perdoasse.

Bem, não vou fazer isso, eles me xingaram. Não havia um só deles que realmente gostasse de literatura. Porque era isto que o meu livro de receitas era – pura poesia na panela. Acho que eles estavam tão entediados, com o toque de recolher e outras regras nazistas, que só queriam uma desculpa para sair de casa uma noite por semana, e ler foi o que escolheram.

Quero que a senhorita conte a verdade sobre eles na sua história. Eles nunca teriam tocado num livro se não fosse pela DISTRAÇÃO. Sustento o que digo, e a senhorita pode me citar diretamente.
Meu nome é Clara S-A-U-S-S-E-Y. três esses ao todo.


Clara Saussey (senhora)




In: SHAFFER, Mary Ann e BARROWS, Annie. A Sociedade literária e a torta de casca de batata. Rio de Janeiro: Rocco. 2008. pág 117

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