dodô

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19 março 2014

Com champignon


"Esta é uma história de amor, embora algum leitor possa protestar que instintos menos nobres a dominem. Envolve uma mulher, um homem e um sentimento entre os dois. Se não quiserem chamá-lo de Amor, tanto faz. Uma rosa com outro  nome teria o mesmo aroma etc, etc.
Encontraram-se em frente às sopas enlatadas. Ele examinava uma soupe a l’oignon, ela pegou distraidamente um creme de lagosta, bateu no braço dele e deixou cair a lata. Desculparam-se mutuamente; sorriram-se, e em pouco tempo estavam conversando. Sobre sopas, a princípio e – à medida que percorriam as prateleiras – sobre outros interesses comuns, sólidos e líquidos. Quando chegaram aos queijos, já tinham descoberto várias afinidades. A principal era um gosto pelo champignon que beirava a paixão. Os olhos dos dois brilharam quando descobriram isto. O ar se carregou de eletricidade quando seus olhos iluminados se encontraram e a conversa era sobre champignons. Se era Amor ou outra coisa, que importa?
Devo esclarecer que nem ele nem ela eram jovens. Estavam naquela idade crepuscular onde o espírito está disposto mas a carne já vacila, e o senso do ridículo intercepta o desejo para frustrar qualquer paixão além da mesa. Mas ainda havia, nos dois – como uma débil chama sob a caçarola, só o bastante para manter morno o molho, mas longe da ebulição – um saudável apetite pela vida. Ou, pelo menos, a morna memória de um apetite.
– Conheço uma receita de champignon... – disse ela, baixando os olhos como uma provocação.
Ele chegou perto para sussurrar.
– Como são?
– Recheados.
– Mmmm.
– Só me faltam trufas para completar a receita comme Il faut. Nunca encontro trufas...
Ele olhou para os lados antes de dizer no ouvido dela:
– Tenho trufas na minha casa. Da França.
– Não!
– Talvez um dia pudéssemos...
– Meus champignons recheados finalmente com trufas! É um sonho que tenho desde que...
– Desde que?
– Desde que meu marido morreu.
Ele engoliu seco. Estavam agora na seção de bebidas.
– Seu marido tinha trufas?
– Não. Não é isso... – Ela parecia alvoroçada. Pegou uma garrafa de Grand Marnier para disfarçar seu embaraço – É que comecei a cozinhar depois que meu marido faleceu. Para encher o tempo. O meu grande prato é champignon recheado. Mas nunca fiz com trufas.
– Há quanto tempo você...
– Sim?
– Está sem trufas?
Ela estava rubra como um rabanete por fora.
– Doze anos.
– Curioso. Nos cinco anos desde que minha esposa faleceu, recebo trufas regularmente, de um sobrinho que mora na França. Mas, fora um ou outro molho, que a minha cozinheira invariavelmente estraga, não sei o que fazer com as minhas trufas...
Alguma coisa pairou sobre o silencio que se fez entre os dois naquele instante. Alguma coisa ainda disforme, a sugestão da sombra da possibilidade de uma ideia. Não podiam ter certeza que daria certo. Às vezes está tudo conforme a receita – champignon dos grandes, o recheio de queijo, a manteiga e o creme para o molho, as trufas acrescentadas ao molho antes de gratinar – e não dá certo. Mas como saber, sem provar?
Esta história tem dois finais, à escolha do leitor. Doce ou amargo, como as sutis variações da cozinha oriental. Num final ele pergunta para ela ‘Você quer?’ E ela faz que sim com a cabeça. Então ele pergunta: ‘Na minha casa ou na sua?’ E ela responde: ‘Na minha, porque eu conheço a cozinha...’ No outro final, os dois se despedem, nunca mais se veem, e o espectro de uma possível sauce com trufas perfeitas para os champignons recheados fica vagando entre as prateleiras, por todos os tempos."




In: VERÍSSIMO, Luis Fernando. A Mesa Voadora. Rio de Janeiro: Objetiva. 2001. pg 17-19

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