dodô

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04 julho 2015

O Livro do Riso e do Esquecimento

“Uma noite, por exemplo, os tanques do gigantesco país vizinho tinham invadido o país. Isso tinha sido um choque tão grande, um pavor tão grande que durante muito tempo ninguém pôde pensar em outra coisa. Era o mês de agosto, e as peras estavam maduras no jardim deles. Uma semana antes, mamãe havia convidado o farmacêutico para ir colhê-las. Mas o farmacêutico não tinha ido e nem ao menos tinha apresentado desculpas. Mamãe não podia perdoá-lo por isso, o que punha Karel e Markéta fora de si. Eles a censuravam: todo mundo está pensando nos tanques e você fica pensando nas peras. Depois eles se mudaram, com a lembrança dessa mesquinharia.
                Só que seriam os tanques realmente mais importantes do que as peras? À medida que o tempo passava, Karel compreendia que a resposta para essa pergunta não era assim tão evidente como ele sempre pensara, e começava a sentir uma simpatia secreta pela perspectiva materna, em que havia uma grande pera em primeiro plano e, em algum lugar, longe, atrás, um tanque do tamanho de uma joaninha, que ia voar de um minuto para o outro e esconder-se dos olhares. Ah, sim! Na realidade, é mamãe quem tem razão: o tanque é perecível e a pera, eterna.”


in: KUNDERA, Milan. O Livro do Riso e do Esquecimento. São Paulo: Círculo do Livro. 1978 pág 31

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