dodô

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01 novembro 2009

bolhas

"Dom Pérignon também foi contemporâneo de Newton: enquanto um se preocupava com maçãs, o outro cuidava da uva. O primeiro fabricava beberagens com bolhas que sobem, o segundo deduzia fórmulas a partir de frutas que caíam. (...)
A época de dom Pérignon é magnífica para as bolhas. Pensemos em Rembrandt, cujo claro-escuro poderia ser considerado a manifestação pictórica da luz nas trvas, a figuração de uma bolha irradiante num universo sombrio; pensemos também em Vermeer, de quem cada tela pode ser lida como representaão de uma bolha de paz num universo barulhento, fervilhante de gente e de comércio: uma mulher que lê, toca virginal, cuida de renda ou escreve uma carta. A menos que pese pérolas, pois a pérola é outra maneira de expressar a bolha. E numa taça de champagne são quase-pérolas que explodem na superfície. No pintor flamengo, elas estão sempre dissimuladas, como se ele quisesse esconder em suas telas os detalhes que significam as vanités. (...)
A bolha de champagne é uma variação do tema da bolha de ar e da pérola. Dom Pérignon é um barroco emblemático... (...)
Dizem, aliás que o barroco é o que c oncerne diretamente ao indivíduo, o que o empolga e o invade sem contemplação pelo espírito, pela inteligência. Antes de tocar o espírito, a alma, e ser um alimento cerebral, tudo o que vem desse estilo requer a prioridade da emoção, da sensação, da paixão. O corpo é o primeiro convidado. Não se pode falar melhor dos efeitos do champagne, mais sedutor que todos os outros vinhos. Precisamos livrar-nos de sua primeira influência. O vinho de dom Pérignon quer que nos desprendamos de seus efeitos antes de podermos saborear suas riquezas. Na boca, o champagne invade, exige todas as sensções ao mesmo tempo. Na língua, no palato, ele borbulha, enche a boca de modo impressionista: libera efeitos vindos de registros diferentes, diversos, múltiplos. O perfume se mescla ao gás, os sabores de longa duração coincidem com um efeito de perda das efervescências. O que um ganha o outro perde: a entropia sofrida por um torna possível a riqueza do outro. E vice-versa. As bolhas, sempre as bolhas. Com efeito, são as explosões gasosas que permitem as fragrâncias. Pois a boca é primeiro conquistada por ele, mais impreriosamente do que por qualquer outro vinho. E por trás desse efeito novo se esconde a verdade da bebida. Não existiria nisso o retorno da máscara barroca? (...)
A máscara de bailes à fantasia tem seu equivalente nas bolhas do champagne: ela é promessa de prazer ou felicidade. Após o efeito sedutor, a verdade sápida.

In: onfray, Michel. A Razão Gulosa. RJ: Rocco, 1999

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