19 outubro 2020

Farofinha para depois do amor

 

                 Para fazer uma farofinha para depois do amor, é preciso antes ter amado. Enquanto você corta a vagem, seu amor pica a cebola. Não, não faça seu amor chorar. É preciso ter coragem: corte você a cebola. Se a cebola desperta um choro, assuma essa tristeza. É necessária certa tristeza. É preciso limpar um punhado de vagens holandesas, e deixar separados três tipos de farinhas. Medir e cortar ingredientes dançam bem com a melancolia. Um punhadinho de farinha de aveia, um punhado de farinha de mandioca, dois punhados de farinha de milho bijú.
                 É preciso conferir a mise en place: cebola picadinha, alho, tomate em cubinhos, vagem limpa e cortada; farinhas separadas em seus punhados. Sal, pimenta do reino, molho de pimenta, óleo de coco, cheirinho verde manjericão. Como o amor, a farofinha pode ter diversos dotes, vai de acordo com a preferência dos amantes.
                 A chama precisa de cuidado. Na frigideira, em chama não muito forte, deve-se derreter a gordura e ali fazer suar a cebola, ela desmilingüindo-se em gozo; deve-se temperá-la com sal e pimenta do reino. Salgue cada coisa a seu tempo, uma leve pitadinha que chove dos dedos do poeta é mais amável do que a colherada bruta de sal no final do preparo. É preciso não se distrair, junte-lhe o alho picadinho ou amassadinho e logo depois as vagens. Um beijinho no seu bem e é hora de adicionar os tomatinhos e deixar, como dizem os franceses, em fogo doce.
                 Não se pode secar um refogado tacando-lhe a farinha sem nenhum cuidado. A farinha deve ser recebida na panela como quem finalmente chega aos braços saudosos do seu amor, se completando, se adorando em devoção.
                 Em outra frigideira também em fogo doce, deve-se derreter mais um naco de óleo de coco, rapidamente adicionar e mexer a farinha de aveia, para que a gordura a penetre por igual, mais uma pitadinha de sal, e sempre mexendo, deixá-la tostar. Quando a vagem estiver al dente, junte-lhe a farinha tostadinha. Remexa sempre. Aproveite a frigideira quente e derreta mais um punhado de óleo, deite-lhe o bijú.
                 A farinha de mandioca não deve ser tostada. Ela deve ir agora direto para a panela da farofinha quase junto com a aveia, para ter uma gominha, muito sutil, mas que dá corpo, fundamental.
Bem ao final deve-se juntar tudo na farofa: bijú, cheiro verde, manjericão, e deve-se ter generosidade no molho de pimenta pois, como sabem, uma boa farofa necessita de um bocado de quentura e acidez. E instiga os palatos dos amantes.
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