dodô

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11 julho 2013

A distância entre nós

                Sera solta um suspiro. Se há uma coisa que odeia é cortar cebola, mas para as omeletes dos dois ficarem prontas a tempo, é melhor começar a fazer isso agora. Não dá para saber a que horas Bhima vai aparecer hoje. Pega uma cebola de tamanho médio e, quando termina de tirar a pele translúcida, seus olhos começam a lacrimejar. Pega a maior faca da gaveta. É melhor acabar com isso o mais rápido possível. Anos atrás, Feroz apareceu de repente às suas costas enquanto ela estava trabalhando na cozinha e disse:
                - Meu Deus, Sera, você corta cebola como quem está cortando uma cabeça. Que veemência!
                - Preferiria cortar cabeças a cebolas – retrucou ela. – Talvez chorasse menos.
                (...)
                Sera quebra dois ovos, bate-os numa tigela, adiciona cebola, alho, coentro e uma pitada de pimenta na mistura que chia ao tocar no óleo quente da frigideira. Uma já foi, agora tem a outra omelete para fazer. Ela se pergunta se deveria fazer mais duas omeletes, uma para si mesma e uma para Bhima, mas a ideia de ter que cortar mais cebolas a detém. Talvez faça omelete de alho para as duas.


in: UMRIGAR, Thirty. A distância entre nós. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 2006, pag 22-23

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